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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Por causa do ENEM quase assassinei um dentista alienado

Dia sinistro foi hoje. Prá começar, longo trajeto de taxi até o Ipiranga, local do meu novo trabalho. Andar de taxi quase sempre me irrita, mas ainda é melhor do que ir de ônibus, depois pegar o metrô e ainda enfrentar mais uma trecho de busão, ida e volta, todo santo dia. Nem Cristo aguentaria! O jeito, portanto, é suportar o motorista que fala demais, aquele outro barbeiro, o que puxa assunto de política invariavelmente contra minhas convicções, o carro cheirando mal ... Serei eu irritado demais? Ou terei de recorrer a um baseadinho de viagem para relaxar suave na nave diariamente?
Por tudo isso, foi torturante encarar outra vez o impiedoso taxímetro no final da tarde. Mas era a única saída para repor um pedaço de dente quebrado em pleno almoço, dois dias atrás. É verdade que era um dente lá do fundo, fácil de esconder num sorriso fingido. O problema era a língua que não parava de lamber, segundo a segundo, o áspero caco sobrante. E, como todos sabem, não é fácil controlar uma língua. A solução era procurar um dentista de emergência, uma vez que o meu fixo reside no interior, muito longe. Bastou ir ao Google e - pronto - o horário estava marcado.
Acenei mais uma vez para o taxi. Mas o motorista, fatidicamente, não conhecia o endereço, nem tinha GPS e sequer um guia de São Paulo. Fomos nós num trânsito infernal à caça de informações, às cegas. Só depois de muitas idas e vindas chegamos ao destino. Convenhamos, leitor e leitora, justificava-se inteiramente minha ira!
No prédio luxuoso, acesso controlado ao estilo do Pentágono, chego ao 14º andar. Descrevo meu caso à alegre recepcionista que a tudo responde "com certeza", preencho a ficha com meu nome de batismo e profissão de professor, debito duzentos e cinquenta pratas no cartão, ingresso no minúsculo gabinete de luzes brancas. Mais uns minutos e lá estou eu entubado como numa UTI, o sugador na boca, o nariz saturado da respiração artificial, a britadeira a escavar profundamente o pobre e já demasiadamente vivido canal, os olhos esbugalhados a fitar a testa vermelha do dentista.
Eis que, impossibilitado de falar, de gritar, de me defender, ouço o inevitável comentário - a última coisa que esperava ouvir num dia tão sinistro:
- E o exame do ENEM, heim! Que incompetência do PT! Que vergonha! Que prejuízo pros estudantes!
Por um átimo de segundo me vieram à mente a campanha eleitoral do Serra, a cantilena do PIG contra a política educacional de Lula, os comentários torpes e parciais de Mônica Waldvogel, Paulo Renato e Eunice Durham no Entre Aspas de ontem na Globonews, as falácias direitistas de Demétrio Magnoli sobre o sistema de cotas na universidade.
Nesse contexto mental, o rosto do dentista babaca, tão próximo, de repente se transformou num monstro reacionário, conservador, alienado e golpista. Sem poder debater, retrucar, combater, compulsoriamente calado, simplesmente ergui as pernas e levantei um dos braços com ganas de estrangular o homem de branco.
O que de nada adiantou. Ele continuou sua ladainha ignorante e grotesca, alimentada pela Globo, pela Folha de São Paulo e pela Veja, acreditando que meus gestos significavam apenas pânico de consultório:
- Calma, já estou terminando! Um homem desse tamanho com medo de tratamento dentário!
Estranhamente, foi esta fala tranquilizadora que acalmou meu ímpeto assassino. Tenho de admitir: o mundo é assim como ele é, conclui.

sábado, 30 de outubro de 2010

Contagem regressiva final: 3...2....1.....13

Bye bye Serra! O Brasil vai seguir mudando.

domingo, 24 de outubro de 2010

sábado, 23 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Rede Globo falsifica a bolinha de papel

Na história brasileira, ficaram conhecidas algumas armações e falsificações políticas que tiveram consequências trágicas. Exemplo disso foram as "cartas falsas", forjadas durante o governo de Artur Bernardes, na República Velha. Outro caso famoso por sua perversidade foi o "Plano Cohen", um suposto plano de tomada do poder pelos comunistas, inventado pelos integralistas, que serviu para justificar o golpe do Estado Novo (1937).
Muito tempo depois, Brizola denunciou uma grave armação da Rede Globo contra sua candidatura. A mesma emissora editou e deturpou, alguns anos à frente, o debate entre Lula e Collor para beneficiar o segundo candidato. Conseguiu. Collor foi eleito. É esta liberdade de imprensa que a Globo, em nome do PIG, defende?

A farsa agora se repete na falsificação do vídeo da bolinha de papel. Mas nem sempre as farsas terminam em tragédia. Pelo excesso de uso, podem se transformar em comédia, das mais rasteiras e hilariantes. Mais risíveis até que as fora de moda de Falabela.


Contagem regressiva

Faltam NOVE dias para Serra encerrar sua carreira política, orientada por uma ambição subjetivamente compensatória, que o levou tentar todos os meios, principalmente os eticamente condenáveis: tornar-se presidente da república. Mas seu sonho foi como uma bolinha de sabão. De menor densidade ainda que a bolinha de papel na qual se agarrou para uma derradeira tentativa de golpe.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Breve cronologia da longa luta pela construção das res pública brasileira (revista e ampliada)

Segunda metade do século XVIII: Insurreições esparsas e atomizadas de colonos (geralmente ligados a atividades comerciais e administrativas urbanas)  inspirados em difusos valores republicanos. Violentamente dizimadas pela coroa portuguesa.

Independência. Época regencial e início do Segundo Reinado (séc. XIX): Rebeliões de camadas médias e/ou pobres de algumas províncias, marcadas por traços republicanos. Violentamente reprimidas pela Guarda Nacional (constituída de forças sob o controle dos grandes proprietários de terras).

1870-1889: Difusão dos ideais republicanos entre civis e militares positivistas vinculados ao mundo urbano e ao segmentos sociais médios. Luta pelo fim da escravidão, defesa do Estado Laico, proposta de reforma das instituições e da modernização do país. Inspiravam-se na Revolução Francesa.

Formação dos Partidos Republicanos regionais. Adesão de alguns grupos latifundiários (entre eles paulistas), contrários à centralização monárquica e interessados na implementação de um federalismo à moda americana. Defendiam a autonomia provincial e a imigração estrangeira, resistiam às leis abolicionistas, tinham como base social os grandes proprietários de terra.

1889 - 1930: A instalação da República desencadeia uma luta encarniçada entre os dois grupos acima. Após dois governos militares (Deodoro e Flolriano), as oligarquias agrárias vencem sob a liderança da elite paulista. Inicia-se a interminável República do Café-com-Leite, período marcado pelo domínio oligárquico, sob hegemonia paulista. A indústria se desenvolve em São Paulo a partir da cafeicultura. A questão social (operária, camponesa) é tratada como caso de polícia. Época de grande exclusão social, tensões, revoltas sociais e início do sindicalismo. A coisa pública é tratada como coisa privada pelas oligarquias industriais e agrárias.

1922: Rebelião tenentista do Forte de Copacabana. Os tenentes retomam ideais do republicanismo militar radical. Combatem o domínio oligárquico e coronelístico. A revolta é duramente reprimida.

1924: Rebelião tenentista em São Paulo. Propósitos semelhantes. A cidade é bombardeada pelas forças da ordem oligárquica. Depois de vários dias, a revolta é debelada.

1924-1928: A Coluna Prestes percorre vastas regiões do país propondo uma insurreição contra o poder central. Principal objetivo: combater as oligarquias que faziam do Estado a sua casa, regenerar a res pública. Membros: tenentes e alguns civis. A Coluna é perseguida mas não vencida. Pequena parte da Coluna, tendo à testa Luis Carlos Prestes, se aproxima dos comunistas.

1930: A Aliança Liberal (tenentes mais setores dissidentes das oligarquias e alguns civis antioligárquicos), sob a liderança de Getúlio Vargas, depõe Washington Luís e toma o poder central. Fim da República Velha. Vargas nomeia interventores tenentistas para o governo dos Estados.

1932: A oligarquia paulista se rebela na tentativa de retomar o antigo poder. Lança mão de intensa propaganda manipulatória para ter o apoio das classes médias e populares. Apesar disso, as forças revolucionárias vencem os reacionários paulistas.

1932-1937: Intensa luta pelo controle do poder. Militares do alto comando reestabelecem a disciplina no Exército e controlam os tenentes defensores do reformismo de maior alcance. De outro lado, desencadeia-se um embate entre comunistas e integralistas. O PCB realiza um levante que é rapidamente frustrado. Período repressivo. Vargas se fortalece com o apoio das cúpulas militares politicamente conservadoras.

1937-1945: Respaldado pelo alto comando das Forças Armadas, Vargas estabelece a ditadura do Estado Novo.  Controla ou se alia aos setores oligárquicos. Reequipa as Forças Armadas. Implementa ações nacionalistas, criando empresas para o desenvolvimento nacional. A industrialização caminha a passos largos. Cria a legislação trabalhista. Ganha o apoio das massas populares. Inicialmente simpático ao Eixo, termina por se aliar aos Estados Unidos e a enviar tropas brasileiras para combater o nazifascismo. Cria o Partido Trabalhista Brasileiro. Deposto em 1945, apesar da oposição dos setores da oligarquia privatista, consegue eleger como seu sucessor Eurico Gaspar Dutra, do alto comandante do Exército.

1950-1954: Getúlio volta nos braços do povo e é reeleito. Novo período de desenvolvimento nacional e social. Criação da Petrobrás com enorme respaldo popular. Os setores oligárquicos, contrários à política trabalhista e nacionalista, desencadeiam intensa campanha golpista sob o comando da UDN. Em nome da democracia e dos princípios liberais privatistas, tentam o golpe contra Vargas. Carlos Lacerda, o corvo, é o principal líder da oposição gollpista. Vargas se mata. Intensa comoção popular.

1955-1960: Intelectuais nacionalistas se reúnem em torno do ISEB: Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Formulam projetos nacional-desenvolvimentistas. De outro lado, os militares dos escalões superiores se organizam em torno da Escola Superior de Guerra, defensora do anticomunismo típico da guerra fria, do alinhamento à política conservadora dos norte-americanos e dos princípios liberais privatistas da UDN. Industrialização e modernização sob o governo JK. Endivademento externo.

1960-1964: Após a crise provocada pela renúncia do demagogo Jânio, João Goulart, herdeiro de Vargas, chega à presidência (mas sem poder) após um acordo das elites que estabeleceu o parlamentarismo. Tem o apoio dos nacionalistas, dos comunistas, de parte dos setores médios, dos camponeses, do operariado, dos estudantes, dos intelectuais e dos sargentos. Realiza um plebiscito que devolve ao país o poder presidencialista. Sofre forte reação dos setores conservadores. Tenta realizar as reformas de base (entre elas a agrária). Estudantes e professores levantam a bandeira da reforma universitária. Militares estimulados pelos latifundiários e pela burguesia oligárquica paulista e mineira (principalmente) conspiram para tomar o poder. Mulheres católicas da elite hipócrita, padres conservadores, TFP, velhos integralistas e outros reacionários realizam a Marcha da Família. (Serra ainda estava do outro lado, mas já olhava aquele desfile com interesse e ambição política)

1964-1984: A ditadura militar em suas várias faces: ajuste monetário, suspensão das liberdades, censura, repressão sobre os movimentos sociais, terror, internacionalização da economia, controle nacional de setores estratégicos para a segurança nacional. Sob o governo Médice ocorre o "milagre brasileiro" que angaria apoio das classes médias ao governo. Grande mobilização política contra o regime em 1967 e 68 reunindo estudantes, professores, intelectuais e artistas. O governo impõe uma reforma universitária de modelo privatista norte-americano. Reprimidos na esfera pública, setores da esquerda iniciam ações armadas contra a ditadura (Dilma integrava um desses grupos de resistência). Onda brutal de repressão. Os líderes sobreviventes se exilam.

Fim da década: Campanha das "Diretas Já" une os oposicionistas ao regime. O partido do governo (ARENA, depois PFL e depois DEM) atua para impedir as mudanças. Derrotado, se alia ao PMDB para se manter no poder. Redemocratização do país, volta dos exilados (Serra retorna em figurino conservador; Gabeira chega de sunga ecocapitalista; Brizola vem para retomar o trabalhismo varguista). Movimento operário no ABC e outras cidades do país. Mobilização de professores e outras categorias de trabalhadores. Surgem novas forças políticas, entre elas o PDT, representativo da esquerda nacionalista (Brizola é o líder, Dilma se filia à sigla) e o PT (reunindo grupos de esquerda, católicos progressistas, sindicalistas e intelectuais).
1985-2001: Intensa disputa entre forças rivais: defensores da res pública e defensores da res privada. Governos Sarney e Collor. Agitação política, divisão e fragmentação dos partidos (PMDB e PSDB, partidos nanicos), conciliação oportunista das elites conservadoras sob a liderança do PFL, descontrole da economia, inflação. (Com a queda de Collor, Itamar cria o Plano Real e controla a inflação). O PSDB transforma a socialdemocracia em neoliberalismo e se alia às forças oligárquicas arcaicas. FHC chega ao poder com o apoio das classes médias e dos grupos sociais dominantes. Surge o PV oscilando entre a socialecologia e o ecocapitalismo. Retrocesso das conquistas sociais e nacionais. Década perdida.

2002-2010: Lula chega ao poder num leque de alianças que aglutina peedemistas progressistas ou não, pedetistas, PCdoB, PSB e outros partidos menores). Retomada da construção das res pública. A esquerda radical rompe com o PT e funda pequenos partidos puristas (PSTU, PSOL, entre outros). Grandes programas sociais garantem o apoio ao governo. Intensa oposição oligárquica privatista sob a bandeira do velho udenismo. Tentativa de golpe contra Lula que, no entanto, angaria enorme apoio popular.

Forças retrógradas se unem para disputar a presidência. Dilma é indicada à sucessão de Lula pelas forças nacionalsocialdesenvolvimentistas. (Marina, desiludida por não ser a preferida de Lula, cai na cama de gato verde que balança entre o ecocapitalismo e a socialecologia; lança a pretenciosa e malograda terceira via que acaba na estrada privatista oligárquica).

outubro de 2010: Retorno das senhoras católicas, dos padres e dos pastores conservadores, da TFP, dos latifundiários agronegocistas e outros oportunistas da mídia. Luta indefinida. Serra agora adere à Marcha dos hipócritas abortistas.  O Estado Laico e modernizador, nunca completado, padece. Vencerão os reacionários? Abortarão as conquistas sociais?

nota de rodapé: Este é um panfleto
escrito à base da memória e sem consulta a livros, que
padece de todas as simplificações e generalizações próprias a tal gênero de texto. Mas sei também fazer de modo rigorosamente acadêmico, o que não é o caso aqui. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Memória de um tempo dramático

O termômetro político da Califórnia nouveau riche brasileira

Uma semana na minha terra, São José do Rio Preto, sob um calor que abafa o cérebro, e já basta. Temo que esta cidade seja o termômetro da virada política conservadora que atravessamos. Aqui o golpe de 64 foi recebido com rojões. Aqui Collor triunfou, assim como todos os tucanos e outros oportunistas. Aqui Serra está em alta no segundo turno.
Não tenho uma amostra leitoral propriamente científica. Mas Vilma, minha faxineira, fornece pistas seguras para estimativas, já que ela também trabalha em várias outras outras casas e me entrega o ouro sobre as preferências políticas dos seus patrões, ou, melhor, das suas patroas.
Segundo Vilma, a maioria é pró-Serra. Tem uma, tipo perua nova, rica faz pouco tempo, que detesta pobre e fica indignada com o fato de que agora qualquer um pode comprar carro vectra, civic, sem falar das santanas e dos gols velhos de guerra. A tal da perua todo ano troca de carro para se distinguir desses pobres encarrados. Vilma conta ainda que outra patroa vive no shopping (chega em casa de cabelo molhado - hum hum!) enquanto o marido trabalha. E reclama que hoje em dia o ambiente shoppínico é também frequentado pelos manos da periferia. Pois é. Como Rio Preto não tem praia, os manos tiveram de invadir o shopping da classe média. E esta se revoltou. Vai votar no Serra.
Do jeito que as coisas estão, não terei mais lugar prá tomar cafezinho. Já briguei com três caixas de loja de conveniência. Hoje bati boca com mais uma delas. Protestei porque no caixa estavam afixadas fotos do Alckmin, do Serra, do prefeito de Rio Preto e do Rodrigo Garcia Lopes (argh!) quando passaram pelo local. Ela me respondeu: "Cê queria o quê? Que eu pussesse a Dilma? Deus me livre". O sangue ferveu nas minhas veias. Perguntei se ela havia estudado e se era evangélica. E sai sem querer ouvir mais nada. Já sabia a resposta.
Nenhum preconceito contra as caixas. E nada de generalizações. Mas, já generalizando, creio que os neurônios dessas meninas foram alimentados pela Xuxa, pela Lucianta Gimenez e pelas novelas da Globo. Todas querem ser modelos. Por isso se identificam com os vencedores, com os sonhos vendidos pela elite. Serão, isto sim, eternos modelos de burrice!
Por que é que grande parte do eleitorado feminino rejeita Dilma? Alguma psicologia barata deve explicar o fenômeno.

Agora falando sério

A situação é dramática. Tarso Genro disse que vivemos uma forma de golpismo parecida com o que ocorreu às vésperas do golpe de 64. Concordo com ele. Não que os militares tentem tomar o poder. Não precisam. Serra já os representa muito bem. Usou expedientes moralistas, hipócritas e culturalmente primitivos em sua campanha.
Como é que se pode admitir tanta influência política religiosa? Como é que retrocedemos a temas morais tão atrasados? Como é que pode uma praticante de aborto, Mônica Serra, se apresentar ao PIG com esse figurino carola, sem discutir o assunto em sua crueza verdadeira? Não que se deva condená-la por ter abortado. Mas sim pela hiprocrisia.
E o tal do Paulo Preto e sua bolsa recheada de quatro milhões desviados? Por que não sai no PIG? Por que condenam José Dirceu? É golpe à vista. E nada de reforma política que acabe com o caixa dois e a concessão de canais abertos a grupos religiosos. Nada de Estado laico. Que dor devem sentir Robespierre, Silva Jardim, Floriano Peixoto e Raul Pompéia!
E a cândida Marina? Descerá do muro ou ficará oportunamente no alto da seringueira a assistir o retrocesso político? Ou ela seria pura expressão do atraso? Marina tem noção do mal que fez e continua a fazer ao Brasil? Sabe lá o que significará uma vitória de Serra nas condições brasileiras atuais? O que será do Pré-Sal, da Petrobrás, das Universidades Federais, do Prouni, do Bolsa Família, do Minha Casa, minha vida?
Isso é pouco? Foi a retomada do nacional-desenvolvimentismo, interrompido em 64. Quantas décadas ainda teremos pela frente para recompor o país de um novo assalto neoliberal? Que justificativa a suposta terceira via (pouquíssimos votaram em Marina em razão do seu projeto de´desenvolvimento sustentável) dará à sociedade brasileira para sua traição política? Ainda é hora de pressionar a cândida Marina. Sua ambição pessoal não pode estar acima dos interesses do povo explorado do país. Com a palavra seus adeptos!

O terceiro mandato que não ocorreu

Lula deu mostras inequívocas do seu apreço à democracia representativa - à democracia puramente formal que não é a única forma de democracia historicamente conhecida. Sabe-se que houve, há e haverá várias formas de democracia. Lula tinha tudo para tentar um terceiro mandato. Bastava um plebiscito popular.
Como já afirmei em post muito antigo, Roosevelt - o artífice do New Deal, que revitalizou a sociedade norte-americana - obteve um terceiro mandato em nome dos interesses maiores do seu país. De Gaulle, ex-guerrilheiro e partícipe da luta armada na Resistência Francesa - ganhou consentimento do seu povo para reerguer a França depois da ocupação nazista. Nossa situação não é assim tão diferente, caros defensores da democracia formal e elitista burguesa. Pagaremos o preço da nossa ingenuidade? Nunca lemos Maquiavel sobre a arte da política?
Caímos no conto do vigário da suposta democracia demotucana. Mas ainda há saída. Que Lula ponha as mãos na massa. Se necessário, que se licencie da presidência nestas duas últimas semanas antes da eleição e percorra o Brasil ao lado de Dilma. Que levante a população brasileira!

Estou finalmente feliz com alguns colegas historiadores

Depois de longos anos de neutralidade, apatia e alienação política da nossa corporação, eis que o atual presidente da ANPUH - Associação Nacional de História, Durval Muniz de Albuquerque, lança uma carta eloquente em defesa da candidatura de Dilma Roussef. É dessa ANPUH que me orgulho: uma associação que se manifesta, que não se alheia dos tempos dramáticos em que vivemos. A carta vem com o título Dois projetos radicalmente distintos. Recomendo-a a todos. Pena que não consegui anexá-la aqui. Mas valeu, caro Durval.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Como Serra comemora o Dia do Professor

15 de outubro de 2010. Dia do Professor. Os professores paulistas nada têm a comemorar. 16 anos de PSDB no governo significaram (e ainda significarão com Alckmin) a completa degradação do sistema público de ensino e a mais aviltante desvalorização do professor na história de São Paulo.
O vídeo abaixo demonstra bem como os mestres foram tratados durante esse tempo. Que os professores paulistas não se esqueçam disso na próxima votação para presidenta.
E que os professores brasileiros não se deixem levar pelas falsas promessas do exterminador da educação pública em nosso país.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Outra herança maldita de FHC: a degeneração da pesquisa e da pós-graduação no Brasil sob o império dos pontinhos da CAPES

Finalmente alguém põe o dedo na ferida da pesquisa e da pós-graduação no Brasil. Está mais do que na hora de rever outra das heranças malditas de FHC, arquitetada em concordância com as diretrizes neoliberais do Banco Mundial e infelizmente mantida no período Lula: o sistema de avaliação da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).
Intelectuais respeitados do país já haviam denunciado esse pernicioso e anacrônico sistema que privilegia a quantidade em detrimento da qualidade. Entre eles, Marilena Chaui e Olgária Matos, para citar apenas dois nomes. Nas universidades há um murmúrio lamentoso em surdina, mas o negócio é se calar e se adaptar às normas, sob pena de ser tachado de improdutivo. Todo mundo quer ser produtivo. Nem que seja por meio da fabricação de inutilidades.
Esse alguém é Paulo Prochno, professor da Universidade de Maryland, segundo o que diz Thomaz Wood Jr. em matéria publicada no último número da CartaCapital. Quem sabe, desta vez, as críticas encontrem ressonância entre nós, já que partem de um acadêmico legitimado por sua experiência no centro do mundo desenvolvido (nossa eterna obsessão) e não na periferia brasílica.
O cara critica acidamente as pesquisas brasileiras realizadas na área da administração. Mas creio que suas imprecações devam também valer para os demais campos de conhecimento, em particular, para as ciências humanas nacionais. O mal é mais abrangente do que se supõe à primeira vista.
Reproduzo aqui seus argumentos centrais, conforme o texto do articulista citado:
1. O jogo de pontinhos da CAPES (relativo ao desempenho geral dos acadêmicos e às várias formas de veiculação das pesquisas realizadas nos cursos de pós-graduação) é uma patologia que pode ser fatal.
2. Trata-se de um sistema pretensamente racional, mas que induz a quantidade em prejuízo da qualidade.
3. A exigência de constante publicação feita pela CAPES leva à proliferação de revistas pseudocientíficas.
4. Tudo isso multiplica as irrelevâncias pseudoeruditas divulgadas em artigos que ninguém lê.
5. O sistema leva à formação de uma geração de burocratas da pesquisa, um grupo frágil e cavernícola, incapaz de de entender e explicar o mundo real.
6. O sistema serve para conseguir pontinhos e cada vez menos para saber o que pesquisar e como pesquisar.
Já cansei de dizer a mesma coisa, mas além de ser chamado de retrógrado, me acusam de ignorar que a "CAPES somos nós". Não ignoro essa trivialidade, ao contrário, procuro combater tal modo de cooptação dos pesquisadores pela doença tecnocrática. Concordo também com Prochno quanto ao surgimento da casta de burocratas da pesquisa. Basta observar como funcionam os conselhos de pós-graduação, os órgãos de pesquisa da universidade, os comitês de área da CAPES somos nós.
Como professor que acompanha e participa da pesquisa em História desde os anos 80, há muito tempo que não tenho contato com trabalhos verdadeiramente relevantes, ou no mínimo estimulantes. A pesquisa na minha área se tornou medíocre, tediosa. Falta inventividade, criatividade, aderência à vida e aos sonhos.
Lastimo o fato de que o MEC, sob o governo Lula, não alterou esse quadro desolador. Espero que Dilma o faça. Só que para isso a comunidade científica terá de pressionar o governo. Haverá tal atitude? Não creio. A casta burocrática da pesquisa tanto se alimenta do tal sistema de avaliação quanto enreda a todos em sua teia.
Enquanto isso, fico na minha. Publico apenas o que julgo digno de publicação. Quanto ao sistema, desejo que exploda, para não dizer outra coisa: que se foda.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Do bem e do mal

Duas faces do eleitorado de Marina

Tenso e faminto na reta final da apuração do primeiro turno, saio para comer alguma coisa numa loja de conveniência. Enquanto devorava o sanduba armazenado desde o dia anterior, definia-se o quadro eleitoral: haveria segundo turno. Ao pagar a conta, a moça do caixa, eleitora de Marina, muito provavelmente evangélica, demonstrou sua indignação com o resultado: "Nessa Dilma bandida eu não vou votar". Puto da vida, mas com um pouco de sangue frio, perguntei qual a razão. A resposta veio rápida: "Ela vai liberar a maconha, essa cafajeste". Lancei sobre ela um olhar envenenado e sai. O que mais poderia fazer diante de tamanha ignorância social, cultural e política?
Demorei pra dormir. Ainda atônito, fiquei no twitter à procura de informações, de avaliações sensatas, de alguma esperança de Brasil. Foi então que soube das notícias que circularam pela blogosfera e nos panfletos distribuídos nas portas das igrejas nos dois dias antes da votação. Letras sujas de uma moral hipócrita, textos difamatórios sobre a vida íntima de Dilma Rousseff, denúncias torpes anônimas, a mais profunda sordidez. Tudo aquilo que se repete há mais de cem anos, sempre quando alguma força social majoritária ameaça a ordem dominante secular.  E acompanhei também as centenas de mensagens escritas no calor da hora. Algumas delas vinham de uma twiteira sempre frequente, outra eleitora de Marina - uma ecologista sincera de Mato Grosso que lançava ao mundo sua desolação em face da não ida da sua candidata ao segundo turno (ingênua, ela acreditou nisso). Seus posts irados: "Não votarei em Serra nem em Dilma. Que se fodam juntos". "Que a direita e a esquerda se matem. Não contem comigo". Arrisquei o argumento ponderado de que nunca existiu centro nem terceira via ou onda verde, que o PV estava a serviço do Serra. Desisti. Ela não compreenderia.
As duas eleitoras raivosas representam bem a dupla face do eleitorado marinense a ser conquistado, ai de nós: de um lado, a ignorância bárbara, primitiva e supersticiosa de alguns segmentos da população pobre alimentada pela miséria religiosa dos modernos templos eletrônicos; de outro, a ideologia conservadora das classes médias insuflada pelo terror das mídias e pelo ecocapitalismo despolitizado. Ambas alienadas e oportunistas.

O cristão anticristo

Se é para operar com os preceitos religiosos, se é para permanecer nas trevas midievais da modernidade brasileira, digamos de vez: Serra é o anticristo, como ironizou Jacques Wagner. Se Cristo estava do lado dos oprimidos, Serra sempre esteve do lado dos poderosos, do mal. Serra é um homem mau. Ressentido, vingativo, vaidoso.
Cheguei a vê-lo de perto. Integrei a comissão de docentes das três universidades públicas paulistas (UNESP, USP e UNICAMP) formada para negociar com ele uma saída para a grave crise instalada no início do seu mandato como governador de São Paulo. No primeiro dia da sua gestão, na calada das férias, Serra surpreendeu a comunidade universitária com um decreto que suspendia a autonomia universitária, em vigor desde a redemocratização do país. Nem mesmo Maluf ousara fazê-lo. Serra o fez, como mais tarde desrespeitaria o princípio da nomeação do candidato mais votado da USP, com isso igualando-se a Maluf. Ao decretar o fim da autonomia universitária, detonou uma onda de mobilizações e de protestos estudantis sem precedentes desde os anos 70. E se não fosse o bastante, Serra autorizou a invasão policial do câmpus universitário, fato inédito desde a ditadura.
Mas como já disse acima, cheguei a vê-lo de perto. Diante de dezenas de professores, alguns deles do próprio PSDB ou de sua base de apoio, todos contrários ao decreto. Vi sua figura acuada, vingativa, pálida tendo de ouvir os discursos inflamados e unânimes contra sua insensatez. Serra é isso. O mal que deve ser enfrentado. Vencemos naquele caso.
Pude vê-lo outra vez no palácio, desta feita pela tv. Cercado pelos professores da rede pública. Imaginei-o novamente acuado, pálido. Mas também vingativo, a ordenar por telefone a repressão brutal contra os manifestantes. E ainda noutra oportunidade, a autorizar o enfrentamento da polícia. "Pau neles", provavelmente ordenou. Pálido, acuado, mas vingativo. Como Hitler em seu bunker.
Serra é isso. O mal que deve ser enfrentado. Venceremos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sob a chuva vermelha

A volumosa chuva sobre o Anhembi na última segunda feira à noite não afastou as dezenas ou centenas de milhares de pessoas presentes no último comício da campanha de Dilma e Mercadante. Eu também estava lá a observar aquela multidão na maioria negra, mulata, pobre, periférica com suas bandeiras agitadas. E enquanto aquela massa compacta se estreitava, cantava e gritava com sincera espontaneidade, tão diferentemente dos blocos comandados de cabos eleitorais comprados pelos partidos sem gente de verdade, eu dialogava com meus demônios imaginários.
E achei bonito o reencontro da nação com sua história, reencarnada no Estado social trabalhista, única via de emancipação do Brasil e do seu povo. Digam o que disserem, evoquem as novas teses subjetivistas, voluntaristas e elitistas da história, proclamem as virtudes do neocapitalismo verdedesign da natura,  permanecerei eu sob essa chuva vermelha.

domingo, 26 de setembro de 2010

Marina, a queridinha da direita

Hoje transcrevo matéria da Carta Maior sobre as últimas estratégias da direita para evitar a vitória de Dilma. Nesta última semana as tentativas golpistas avançam. Devemos estar atentos. Peço que leiam o texto abaixo:


A bala de prata era verde

da Carta Maior


A direita brasileira raspou o fundo do tacho e chegou à seguinte conclusão: Marina é o último cartucho de Serra. Todas as pesquisas divulgadas até a 6º feira convergem para um ponto de equilíbrio sedimentado: Dilma tem 50% das intenções de votos (oscilou apenas um ponto depois de toda fuzilaria das últimas duas semanas). Serra patina em torno de 25%. Parece difícil ir além por suas próprias ‘qualidades’. Depois de tudo o que tentou, a boa vontade estatística, leia-se, o versátil Ibope do transformista Carlos Montenegro, lhe deu uma oscilação de amigo do peito de 3 mais pontos. Anima a militancia da página 2 da Folha, mas é insuficiente. Para levar a eleição ao 2º turno, resta ao conservadorismo nativo pintar-se de verde e bombar Marina Silva pelo ar, por terra e por mar, 24 horas por dia nos próximos oito dias. O mutirão já começou. Faz parte desse tour de force, por exemplo, a retardatária adesão do neoecologista Pedro Simon à candidatura do PV, nesta 6º feira. O movimento ambientalista brasileiro encontra-se diante de uma encruzilhada histórica: tem oito dias para decidir se integra o campo de forças que lutam pela transformação do Brasil numa sociedade mais justa e sustentável, ou, ao contrário, como lamentavelmente sugere o comportamento de alguns de seus porta-vozes e lideranças lambuzadas com a atenção da mídia, se assume a condição subserviente de pé-de-palanque da direita e da extrema direita unidas no interior da coalizão demotucana. Chico Mendes por certo não hesitaria em escolher seu lado se na reta final de uma disputa política, como agora, tivesse objetivamente duas opções de poder: um governo amarrado em torno dos compromissos históricos de Dilma e Lula ou um Brasil submetido ao comando da alarmante dupla Serra e Índio da Costa. Resta saber qual será a escolha de Marina Silva. A ver.

(Carta Maior, 25-09)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Intelectuais de volta ao passado

Agradeço muitíssimo às amigas e amigos que comentaram minhas opiniões impressionistas do post anterior, ainda que eu discorde de um ou de outro. Meu interesse maior no blog não é a política. Gostaria de voltar aos assuntos que me são mais caros: o mundo atual como espetáculo deprimente (incluindo a política), a subjetividade atônita e a perplexidade filosófica dos nossos dias, a arte como vida autêntica. Mas entre tudo isto e a realidade cotidiana há um buraco terrível, quase intransponível. Por isso tenho de voltar à carga:

Manifesto em defesa da democracia elitista: Leio no Estadão de hoje a íntegra do manifesto que será divulgado amanhã por um punhado de intelectuais liberais de São Paulo ligados a José Serra. O texto virá com as assinaturas de figurinhas carimbadas, algumas portadoras de inegável crédito intelectual, embora politicamente comprometidas e equivocadas, outras sem o mesmo prestígio ou simplesmente oportunistas. São elas: D. Paulo Evaristo Arns, cujo papel na luta contra a ditadura militar temos de reconhecer e aplaudir, ainda que não se possa ignorar seus vínculos políticos, eclesiásticos e civis, com o pensamento conservador; Ferreira Gullar, sobre o qual já falei antes e não perco mais tempo para tratar dele; os cientistas políticos José Álvaro Moisés, Bóris Fausto, Leôncio Martins Rodrigues e Lourdes Sola, conhecidos personagens do staff fernandohenriquista, reacionários até a medula; José Arthur Giannotti, filósofo guru do mesmo grupo;  Celso Lafer, liberal de carteirinha da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo; Marco Antonio Villa, historiador da causa perdida de 1932, restaurador dos mitos paulistas pré-históricos, funcionário contratado por Serra para dirigir uma coleção pró-bandeirantismo; e uns outros artistas da velha guarda. Não se espere que seja obrigatório a todo artista pensar. O teor do manifesto é de uma hipocrisia enorme, revestida de sinceridade democrática. Leiam amanhã.

A ditadura democrática da mídia: O príncipe dos sociólogos ressurge de quando em quando para nos civilizar. No mesmo Estadão do domingo passado ele se levanta do trono para solenemente dizer: "Uma das coisas que mais me surpreendeu (sic, eminência) na trajetória política de Lula foi a absorção por ele do que há de pior na cultura do conservadorismo, do comportamento tradicional (...). O PT quando foi criado se opunha ao corporativismo herdado do fascismo e de Getúlio Vargas. No poder, vemos que ele ampliou esse corporativismo". FHC, PSDB e seus intelectuais orgânicos, aliados ao moderno, civilizado e democrático DEM e à mídia financiada golpista, simplesmente temem a democracia de base popular, única forma que, historicamente, pode promover reformas sociais na América Latina. As velhas questões da democracia social, recalcadas pelo superego civilizado e moderno, estão de volta. Assustado, o superego tentará o golpe? Quem o apoiará? Os militares, a classe média, as senhoras católicas das cavernas? Não creio.

O sonho e a realidade de Marina Silva:  Cabocla bem-formada nas lutas do PT, Marina Silva não se conteve dentro de si mesma, foi incontinente. Egóica e apressada, incensada pelas ONGs internacionais, não teve a paciência de articular políticas de desenvolvimento sustentável à política social de urgência e premência para o país, experimentada a partir do governo Lula. Rendeu-se ao discurso oco dos verdes nacionais, modernos de superfície. É uma pena que tenha caído nessa cova de leões sem rumo.

A visão de Deus: íntegra das palavras pintadas no papelão de cobertura do mendigo que mora aqui perto de casa, o mesmo ao qual me referi no antepenúltimo post: "Só uns come, outros não pode come. Só Deus. Voce não tem visão?". Remeto esta pergunta a Marina Silva, defensora da política de desenvolvimento sustentável. Não é preciso alguma resposta de Serra, já a conheço de cor, apesar das suas últimas investidas desesperadas - estas, sim, demagógico-populistas, como a promessa insustentável de aumento do salário mínimo. 

domingo, 19 de setembro de 2010

Saudade da Nara Leão e outras observações políticas

Meu amigo Cezinha quer me colocar no fogo: pede minha opinião sobre os últimos lances da disputa eleitoral. Seu pedido é uma ordem, mesmo que a cada post político eu perca um seguidor (prefiro a palavra comparsa). Mas que ele não espere alguma análise imprescindível ou algum dossiê novo. Não sou cientista político nem jornalista. Minhas opiniões sobre esse tipo de assunto são sempre impressionistas. Então vamos lá:

O significado do lulismo: Não adianta a oposição espernear. O Brasil vive hoje um novo ciclo político cujas raízes vêm lá do varguismo. Pouca gente admite isso, principalmente alguns petistas que ainda pensam o PT a partir da sua matriz dos anos 80, sedimentada na tese da autonomia dos movimentos sociais. O PSDB, herdeiro do udenismo e do velho liberalismo paulista pré-30, apostou tudo na desmontagem do projeto de Getúlio. FHC foi o maior guru desse grupo que só faz criticar o Estado forte e o suposto populismo ignorante da América Latina. Pois ficarão sepultados por um bom tempo, tendo em suas tumbas a companhia moderna e civilizada dos coronéis de terno ou farda. Se quiserem saber mais sobre esta interpretação é só ler o magnífico artigo de André Singer na Ilustríssima da Folha de SP de hoje (as pérolas também podem brilhar no chiqueiro): A história e seus ardis. Em sua análise, Singer explica de forma inteligente o realinhamento de forças ocorrido sobretudo no segundo mandato de Lula, que propiciou "a aliança entre a burguesia e o povo, que ninguém mais achava que pudesse funcionar". Segundo ele, trata-se de um fenômeno semelhante ao que aconteceu com o New Deal de Roosevelt, que determinou "o andamento da política por um longo período". Dilma, não por acaso vinda do PDT brizolista que por sinal veio do PTB varguista, é a sucessora adequada para lhe dar prosseguimento. E não me venham com as histórias bobas da elite de nariz torcido para o que chamam de populismo!

O golpismo não é novidade: A história serve, pelo menos, para relembrar aquilo que fica debaixo do tapete. Por exemplo: a campanha do corvo lacerdista contra o suposto "mar de lama" no último governo Vargas, na verdade, uma aliança cada vez mais nítida com os segmentos populares e os grupos nacionalistas; a sublevação mal-sucedida de Jacareanga contra JK; a tentativa de impedir a posse de Jango e, afinal, o golpe vitorioso de 64, arquitetado pelos mesmos atores e as mesmas ideologias. A invenção do mensalão, quarenta anos depois, seguiu idêntico script, mas não deu resultado. Dias atrás atribíram ao PT os dossiês de invasão da receita federal criados no intestino do próprio PSDB, quando do embate Aécio-Serra. Ao fazê-lo, cobriram de véu a Verônica da semana santa, Eduardo Jorge e outros que, dizem as más línguas, estiveram nos navios da privataria fernandista. E agora jogam o último lance, espero que suicida, ao darem voz a um notório vigarista recem-saido da cadeia. Em 25 de agosto de 2005, no auge da escalada para derrubá-lo, Lula respondeu: "Nem farei o que fez o Getúlio Vargas, nem farei o que fez o Jânio Quadros, nem farei o que fez o João Goulart". Lula sairá outra vez por cima. Com o povo. É simples assim.

Que orgulho da nossa imprensa livre!: O governo tucano de São Paulo assina jornais e revistas da imprensa golpista e os distribui em todas as escolas públicas com o pretexto de promover o acesso das crianças e jovens à leitura. Nada disso. O que está em jogo nesse e em outros contratos milionários é a troca de favores políticos. Por isso as manchetes diárias do PIG contra Dilma e o PT. Por isso os factóides cotidianos. O que mais virá até 3 de outubro? Sempre haverá um coelho na cartola. Espero que morto, amigos ecologistas! De livre essa imprensa não tem nada. Se é para defender a liberdade de imprensa, que todas as cartas estejam na mesa. E não apenas às vésperas da eleição, quando não há tempo para formar a opinião verdadeiramente pública.

A santa evangélica de pau oco: Primeiro, Marina fez coro à Serra, foi sua coadjuvante. Agora, tenta caminho próprio e vai tirar uma parcela dos seus votos, mas poucos de Dilma. O seu eleitorado será a classe média reginaduartemente assustada ou envergonhada de Serra, que inclui também alguns componentes da elite dita intelectual. Qual é mesmo o projeto de Marina? Abrir nossas fronteiras para todas as bem(mal) intencionadas ONGS internacionais? Estimular o capitalismo-design-natura-virtual-moderno à moda do paulista Feldman? Quantos empregos vai gerar com esse pseudo-ecológico-evangélico capitalismo? Muitos dos meus colegas intelectuais historiadores acreditam nessa coisa. Sempre fora do mundo real!

Que saudade da Nara Leão!: Quando leio a coluna da Danuza Leão - o que faço só uma vez por ano e com o nariz tapado -, sinto enorme saudade da sua irmã. Daquela voz suave, daquela opinião generosa. Danuza, ao contrário, é reaça de mais e inteligente de menos. Por que não se limita a falar de etiqueta em vez de dar palpites políticos idiotas? Outro que me irrita, mas só esporadicamente quando decido perder tempo com suas crônicas, é Ferreira Gullar. Confesso que não gosto dos seus poemas, com exceção de uns poucos, como Luta corporalPoema sujo. Quanto às suas notas políticas, acho-as abomináveis. Expressão de puro ressentimento dos velhos comunostalinistas, atualmente liberais sempre às voltas com o passado recalcado, sob o manto do liberal PPS. Na coluna de hoje, Gullar foi longe demais ao acusar o PT do assassinato do prefeito Celso Daniel. Ex-stalinista é assim mesmo. Projeta nos outros os próprios crimes conscientes ou inconscientes. Que continue a escrever poemas, com o perdão da liberdade poética. Mas não me tenha entre seus leitores. Tou fora.  

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Em memória dos partidos defuntos. No dia da autoflagelação de Cláudio Lembo, o representante da elite branca

Em memória dos extintos PSDB, DEM, PPS, PV, PIG e outros partidos de aluguel, posto aqui a metralhadora de mágoas de Cazuza. Que chafurdem na piscina cheia de ratos: 

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Essa marrom é fudida!

A Marron é demais. Fudida. Vozeirão que invade o mundo. Gorda possante. Popular, pop. Um dia será cult. Os babacas da classe média intelectual torcem o nariz diante dela. Mas ela é samblues, jazzpagode, afrobolero. Veio do Maranhão, como Zeca Baleiro, outro massa. Maranhão é mais que Sarney, como diria meu irmão Zé Henrique Borralho. Nos states estaria por cima. Cá entre nós, é o povão que sabe dessa verdade. Curto Alcione. E deixo um dos seus hits pra emocionar esta página. Adiciono também sua declaração de voto na Dilma. Vejam abaixo:



segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Sobre a vaidade 2

Em seu comentário, Marcantonio deixou uma máxima tão precisa sobre o tema do post abaixo que resolvi reproduzí-la aqui. Mas só em estado de supressão do superego, como acontece comid agora, nesta fantástica desglobalizada uma hora da manhã, se pode apreender o seu (b)embolado significado essencial. Ou, como diria Gil: "Abacateiro teu recolhimento é justamente o significado da palavra temporão Enquanto o tempo não trouxer teu abacate Amanhecerá tomate e anoitecerá mamão". Concordam comigo?

"[...]quanto maior é a vaidade de cada um, tanto é maior a sua aplicação: não estudam para saberem, mas para que se saiba que eles sabem; buscam a ciência para a mostrarem; o seu objetivo principal é a ostentação, e assim não é a ciência que buscam, mas a reputação; esta é como as outras, em que o adquirir é mais fácil do que o conservar." (Mathias Aires)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Recado sobre a vaidade



"A vaidade é um princípio de corrupção." (Machado de Assis)


O destinatário desta frase tão sábia, com o qual sou fadado a cruzar de vez em quando nas escadarias marmorizadas e nas salas soturnas de um antigo prédio, cujo nome não posso dizer (por enquanto, só por enquanto), provavelmente não conheça nem leia este blog. E talvez nem saiba que a máxima acima pertence ao ilustre escritor brasileiro que, diante dos seus auditórios bajuladores, ele diz admirar. E se soubesse, pouco lhe faria em sua soberba incorruptível. Ou sequer alcançaria o sentido profundo, a sutil ironia e o elegante jogo de palavras contido em tão poucas palavras. Porém, como todos os caminhos levam a Roma, estas um dia em breve também chegarão ao destino. Simplesmente e sem alardes vaidosos. As palavras verdadeiras não se corrompem.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Quando teremos uma virada paulista de verdade?

Bem que o Estado de São Paulo merecia uma virada de verdade! Já tem décadas que a política paulista segue arrastada num lenga-lenga regido por um único projeto: deixar as coisas como estão, manter os mesmos grupos no poder, satisfazer  a fome insaciável das panelinhas de sempre. Geraldo Alckmin - o insípido - é o cara perfeito para desempenhar esse papel de não-líder das elites e da classe média de São Paulo. Será o seu gerente, mas nem por isso alguém morrerá de amor por ele.
Passam os anos e os políticos locais repetem a antiga ladainha dos arcaicos liberais paulistas. Ladainha criada nos confins do século XIX e que na época podia até fazer algum sentido. São Paulo, diziam, é uma ilha de progresso no imenso território da preguiça nacional. Em vista disso foi até comparada à pujante nação yankee. Os próprios paulistas se viam racialmente superiores aos indolentes brasileiros. E chegaram até a pensar em separatismo.
Mas veio a República e com ela a oportunidade de impor os interesses de São Paulo ao restante do país. Aliados às forças oligárquicas decadentes dos outros estados, as elites paulistas venceram os verdadeiros republicanos - os militares positivistas cujos sonhos, ainda que quixotescos, eram, ao menos, decentes e patrióticos. E por trinta anos, então, impuseram seu império liberal particularista. Até que um novo exército patriótico, nacionalista e reformista, tendo à frente um civil gaúcho baixinho, botou prá correr o último presidente da orgulhosa burguesia bandeirante.
De lá para cá a política paulista foi um contínuo desandar. Tentaram 32, foram derrotados. A saída foi simular uma composição com o baixinho gaúcho até a hora em que fosse possível dar outro bote. Mas quem seriam os novos líderes de São Paulo? Teve de tudo: o corrupto Ademar, do rouba mas faz, o Jânio maluco e um ou outro cristão constrito cheira-não-fede, como Carvalho Pinto, espécie pré-Alckmin. Até o golpe de 64, realizado em nome do anticomunismo - que a elite e a classe média locais apoiaram entusiasticamente - a política paulista oscilou entre a demagogia, o golpismo e o semsaborismo cristão, personificados por aquelas três figuras patéticas.
Diante dessa tacanheza, os truculentos generais não tiveram qualquer dificuldade em São Paulo. Designaram Maluf para interpretar a alma paulista e este representou o papel com esmero, sempre aplaudido de pé pela platéia eleitora local. Tão bem que continuou no palco até mesmo depois da queda dos ditadores.
A história recente continuou na mesma toada depressiva. A única novidade foi o surgimento de uma nova força política no ABC: o petismo que, embora apoiado numa ampla base social, em escala nacional, não foi até o momento capaz de furar o cerco conservador estadual. Na ponta oposta, Montoro e Covas tentaram sem sucesso reanimar o espírito dos seus conterrâneos com um arremedo de socialdemocracia, que rapidamente retornou aos seus princípios ideológicos de origem: o velho liberalismo, rebatizado de neoliberalismo. Criado nos laboratórios de ciência política da USP, ele teria FHC como seu mentor e logo seu executor nacional.
Hoje tal projeto se encontra liquidado na maior parte do país em face do novo ímpeto de reforma social encabeçado pelo PT. Mas teima em sobreviver em São Paulo, cuja população, até agora parece dormir ao som tedioso do seu líder sem projeto. Quando será a hora da virada?