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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A pista de Dáfnis e Cloé

Vejam este trecho do filme Cléo e Daniel (1970), cujo diretor - o psicanalista reichniano Roberto Freire - transpõe para a tela sua obra homônima, publicada em 1966, e que obteve enorme sucesso, tendo sido vendida em bancas de jornal:


Pois é. O romance e o filme foram inspirados na pastoral Dáfnis e Cloé, de Longus, escritor grego pouco conhecido, que viveu por volta dos séculos II ou III d.C. e nela cantou as peripécias do amor entre dois adolescentes, conforme os ensinamentos de Eros. Sua obra mereceu outras adaptações, como uma ópera criada por Ravel, reproduzida em parte na trilha sonora de Roberto Freire.
E daí? Daí, nada. A não ser que neste breve comentário lanço a pedra fundamental da minha nova pesquisa histórica que, aliás, já venho madurando há tempos: cultura, vida universitária, costumes e política nas décadas de 1960 e 1970. É claro que o título não será esse. Todo título é provisório, assim como a própria pesquisa e, muito mais, a reflexão. Se isto é verdadeiro, Cléo e Daniel (o livro e o filme) são apenas portas de entrada para o trabalho que, com o tempo, irá deles se desprender pouco a pouco.
Por enquanto, fico com ambos. De hoje a março do ano que vem devorarei cada palavra do romance e cada cena do filme. No mês das chuvas apresentarei minhas primeiras investidas da pesquisa sobre Cléo e Daniel numa mesa redonda do ciclo Leituras da modernidade, que está sendo organizado em Assis pelo professor Gilberto Martins, do Departamento de Literatura.
Nada mais posso dizer a esta altura. Deixo somente uma pista: meus anos 60 e 70 serão muito mais que deuses e diabos, oficinas e centros populares de cultura, buarquismos e tropicalismos, passeatas e generais, aleenes, colinas e varpalmares, marias antonias e zés dirceus.
Que Eros ilumine meu caminho!

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Outra herança maldita de FHC: a degeneração da pesquisa e da pós-graduação no Brasil sob o império dos pontinhos da CAPES

Finalmente alguém põe o dedo na ferida da pesquisa e da pós-graduação no Brasil. Está mais do que na hora de rever outra das heranças malditas de FHC, arquitetada em concordância com as diretrizes neoliberais do Banco Mundial e infelizmente mantida no período Lula: o sistema de avaliação da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).
Intelectuais respeitados do país já haviam denunciado esse pernicioso e anacrônico sistema que privilegia a quantidade em detrimento da qualidade. Entre eles, Marilena Chaui e Olgária Matos, para citar apenas dois nomes. Nas universidades há um murmúrio lamentoso em surdina, mas o negócio é se calar e se adaptar às normas, sob pena de ser tachado de improdutivo. Todo mundo quer ser produtivo. Nem que seja por meio da fabricação de inutilidades.
Esse alguém é Paulo Prochno, professor da Universidade de Maryland, segundo o que diz Thomaz Wood Jr. em matéria publicada no último número da CartaCapital. Quem sabe, desta vez, as críticas encontrem ressonância entre nós, já que partem de um acadêmico legitimado por sua experiência no centro do mundo desenvolvido (nossa eterna obsessão) e não na periferia brasílica.
O cara critica acidamente as pesquisas brasileiras realizadas na área da administração. Mas creio que suas imprecações devam também valer para os demais campos de conhecimento, em particular, para as ciências humanas nacionais. O mal é mais abrangente do que se supõe à primeira vista.
Reproduzo aqui seus argumentos centrais, conforme o texto do articulista citado:
1. O jogo de pontinhos da CAPES (relativo ao desempenho geral dos acadêmicos e às várias formas de veiculação das pesquisas realizadas nos cursos de pós-graduação) é uma patologia que pode ser fatal.
2. Trata-se de um sistema pretensamente racional, mas que induz a quantidade em prejuízo da qualidade.
3. A exigência de constante publicação feita pela CAPES leva à proliferação de revistas pseudocientíficas.
4. Tudo isso multiplica as irrelevâncias pseudoeruditas divulgadas em artigos que ninguém lê.
5. O sistema leva à formação de uma geração de burocratas da pesquisa, um grupo frágil e cavernícola, incapaz de de entender e explicar o mundo real.
6. O sistema serve para conseguir pontinhos e cada vez menos para saber o que pesquisar e como pesquisar.
Já cansei de dizer a mesma coisa, mas além de ser chamado de retrógrado, me acusam de ignorar que a "CAPES somos nós". Não ignoro essa trivialidade, ao contrário, procuro combater tal modo de cooptação dos pesquisadores pela doença tecnocrática. Concordo também com Prochno quanto ao surgimento da casta de burocratas da pesquisa. Basta observar como funcionam os conselhos de pós-graduação, os órgãos de pesquisa da universidade, os comitês de área da CAPES somos nós.
Como professor que acompanha e participa da pesquisa em História desde os anos 80, há muito tempo que não tenho contato com trabalhos verdadeiramente relevantes, ou no mínimo estimulantes. A pesquisa na minha área se tornou medíocre, tediosa. Falta inventividade, criatividade, aderência à vida e aos sonhos.
Lastimo o fato de que o MEC, sob o governo Lula, não alterou esse quadro desolador. Espero que Dilma o faça. Só que para isso a comunidade científica terá de pressionar o governo. Haverá tal atitude? Não creio. A casta burocrática da pesquisa tanto se alimenta do tal sistema de avaliação quanto enreda a todos em sua teia.
Enquanto isso, fico na minha. Publico apenas o que julgo digno de publicação. Quanto ao sistema, desejo que exploda, para não dizer outra coisa: que se foda.

sábado, 11 de setembro de 2010

Minha árdua semana da pátria

Vários dias ausente do blog e por razões justificadas. Enquanto outros gozavam os doces prazeres da semana da pátria, eu suava a camisa e consumia os parcos neurônios diuturnamente (esclareço este exagero logo abaixo) num congresso de História.
Já fazia algum tempo que, por falta de saco, eu não frequentava um evento acadêmico desse tipo. Mas voltei, como todo filho um dia volta ao seio materno e o criminoso à cena original do crime.
E simplesmente para concluir que quase nada mudou no palco científico, a não ser o fato de que os congressos proliferam cada vez mais. Os interessados não precisam gastar muito tempo para encontrar centenas de anúncios de simpósios, encontros, seminários, semanas, sejam regionais, nacionais ou internacionais.
Há de tudo um pouco: jornadas para médicos, físicos, químicos, biólogos, sociólogos, comunicólogos, cientistas políticos, antropólogos e, claro, históriadores. Os humanistas moles não precisam mais ficar ressentidos com os cientistas duros, uma vez que também têm à disposição seus próprios supermercados, shoppings e fashion weeks.
A diferença é que as barracas dos historiadores parecem mais pobres, talvez porque nossos produtos não tenham grande importância no comércio global. Nossas tendas estão mais para os camelódromos do que para os iguatemis luxuosos. A disparidade entre os congressos daqueles profissionais e os nossos é demonstrada já na distribuição dos badulaques do evento aos participantes. Enquanto eles recebem elegantes pastas de couro ou modernas mochilas para notebooks, nós ganhamos de entrada umas pastinhas baratas de plástico, equipadas com canetinha de ambulantes e um bloco de anotações comprado na gráfica da esquina.
Sei que isso é bobagem. O que importa é o conteúdo das conferências, das mesas redondas, dos seminários. Mas sobre tal não direi nada. Quem sou eu para julgar as centenas de trabalhos apresentados, que vão da análise dos escritos de Clarice Lispector às confissões íntimas do Padre Feijó? Como poderia discernir alguma coisa nessa massa de novas informações, metodologias e temas históricos culturais expostos pela multidão de novos especialistas, geralmente estudantes de pós-graduação, cada vez mais abundantes no mercado acadêmico?
Profissional velho de guerra, de um tempo em que se discutiam grandes teses acerca da realidade histórica, é difícil para mim opinar sobre esse verdadeiro turbilhão de pequenas dissertações culturalistas sobre não sei o quê e para quê. E não vai aqui qualquer crítica.
Ainda bem que não sou o único a falar dessa perplexidade. Lá mesmo no congresso, ao perambular pelas inevitáveis bancas de livreiros desejosos de algum consumidor de letras, comprei um livrinho de autoajuda acadêmica, no qual o autor - o best seller Zigmunt Bauman - trata da massa informe de conhecimentos em nossos dias:

"Essa massa de conhecimento acumulado transformou-se no epítome contemporâneo da desordem e do caos. Nela mergulharam e dissolveram-se pouco a pouco todos os critérios ortodoxos de ordenamento: tópicos de pertinência, atribuição de importância, necessidades determinantes de utilidade e autoridades determinantes de valor. A massa faz esses conteúdos parecerem uniformemente descoloridos. Pode-se dizer que, nela, todas as informações fluem com o mesmo peso específico; portanto, para aqueles a quem se nega o direito de reivindicar a competência de seu próprio julgamento, embora sejam expostos às correntes de teses contraditórias dos especialistas, não há como separar o joio do trigo. Na massa, a parcela de conhecimento retirada para uso e consumo pessoal só pode ser avaliada com base na quantidade, não é possível comparar sua qualidade com o restante. Todas as informações se equivalem".

Por isso, embora tenha frequentado as sessões do congresso, gostei mais de perambular pelos corredores e conviver com os amigos: antigos e novos alunos, orientandos, colegas e gente recém-conhecida. Nos corredores e nos botecos é que aprendemos a, pelo menos, saber como são realmente as pessoas, o que pensam e se vivem apaixonadamente como pensam, não como meros profissionais-mercadorias de supermercado. Semprei achei que esse é o melhor método de conhecimento.
E assim esclareço como foi minha árdua jornada na semana da pátria. Acho até que aprendi alguma coisa.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Filósofos reclamões

Hoje fui ver um debate sobre as perspectivas da universidade pública para o próximo decênio. Debate organizado por dirigentes universitários paulistas e, embora dirigido à comunidade universitária em geral, teve como público dominante os próprios dirigentes e seus assessores. E é bom que se diga, na maioria ligados às áreas de aplicação tecnológica, atualmente hegemônicas nas ciências exatas e biológicas.
Dos três palestrantes, dois eram das ciências humanas e o outro médico, todos experientes e no topo da carreira acadêmica. As exposições foram de altíssimo nível e poderiam, certamente, estimular a reflexão sobre os impasses e possibilidades da universidade no mundo mercadológico-midiático contemporâneo. Eu disse poderiam, pois duvido que tiveram ou terão tal efeito entre os presentes.
Tomo o caso da palestra da filósofa Olgária Matos, ponto alto do debate. Ao discorrer sobre as diferenças entre a universidade moderna - aquela que morreu lá pelos anos 70 do século passado - e a universidade pós-moderna - emergente desde então, seu balanço do que ganhamos foi melancólico, para não dizer pessimista. Perdemos os valores humanistas da filosofia, das letras e das ciências como condição para a emancipação humana. Ganhamos os valores da produção tecnológica para o mercado, o controle imperioso da pesquisa para a tecnologia imediata, não importa que sentido tenha. Mas a contabilidade das perdas e ganhos (já que é na lógica contábil que hoje habitamos) vai muito além deste breve resumo, conforme demonstrou a filósofa.
A grande questão que resultou da discussão foi - qual o papel reservado para as humanidades na universidade mercadológica de resultados da atualidade? Eu mesmo fiz esta pergunta, ao final, mas ninguém soube responder. Ao sair do auditório e me despedir de alguns colegas engenheiros, um deles se referiu à minha indagação (é claro, pensando indiretamente na palestra de Olgária Matos) dizendo: mas vocês das ciências humanas só sabem reclamar!
Tenho de concordar com ele. O único papel que nos resta talvez seja reclamar, inclusive dos novos transumanistas (historiadores, filósofos, sociológos, geográfos, professores de letras) que também já se renderam à repetição (pois que produção não é) em série de inutilidades tecnológicas. Aos demais só cabe a tarefa de, uma vez ou outra, adornar o mundo cão dos negócios universitários com pensamentos belos, mas obsoletos, que entrarão por um ouvido e sairão pelo outro.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Como ler José de Alencar nas aulas de História

Juan Moravagine Carneiro, que de vez em quando passa por esta página, pede que eu sugira alguns contos para usar em aulas de História. A pergunta me fez pensar numa série de questões, por exemplo: como ensinar História na atualidade, quais as possibilidades de trabalhar com a fonte literária, se os alunos de hoje lêem Literatura ou o que lêem, e várias outras.
Pela importância do assunto, resolvi torná-lo público no blog sem consultar o próprio interessado. Espero que me desculpe por esta leviandade. Mas não quero falar aqui de forma acadêmica, como um sujeito suposto saber lacaniano, embora também já tenha redigido alguns artigos especializados a esse respeito (caso queiram consultá-los, as indicações constam do meu Lattes. Basta acessar o link ao lado).
A verdade é que não existem receitas prontas para explorar a Literatura seja na pesquisa histórica seja nas aulas de História. Cada caso é um caso. E cada um tem seu contexto. Faltou o amigo dizer, por exemplo, se leciona em escola pública ou privada, no período diurno ou noturno, se no ensino fundamental, médio ou superior, se para mulas do tráfico, camponeses colombianos, peruas daslus ou brothers do Morumbi,  se a sua escola aceita inovações, se os colegas gostam de dar aulas, e até que ponto ele mesmo aceita ir adiante em seu trabalho pedagógico. Ou antipedagógico, que é o mais apreciável e recomendável.
Não seria difícil fazer uma lista de contos e de autores que contribuam para a compreensão histórica. Todo ano sai uma relação desse tipo nos jornais. É só misturar (no que tange aos nacionais) um pouquinho de clássicos com outros modernos: uma pitadinha de Alencar, Machado de Assis, uma porção de Monteiro Lobato, Mário de Andrade, uns pingos de Rubem Fonseca. O que não adiantará nada. Os alunos continuarão a detestar História e, principalmente, Literatura. Caso leiam, será apenas para participar do vestibular. É isso o que o amigo quer? Eu não.
Ouve-se de todo lado que a molecada atual não lê romances, poesia nem livros de História. Disso reclamam professores, pais, dirigentes e a mídia entendida. Pois vou confessar uma coisa: no lugar deles eu também não leria. Não é à força da palavra pedagógica e moral que se aprende a gostar dessa modalidade de textos. Literatura e História pressupõem uma escola poetizada, aulas literalizadas, professores apaixonantes. As nossas escolas, as nossas aulas, os nossos currículos, os nossos professores (sempre há exceções, como o inspirador deste texto) vivem à margem disso. Nossa escola já faliu há muito tempo, sinto muito.
Meus filhos, quando pequenos, diziam que as professoras de português (nada de machismo: no caso deles eram mulheres, mas também poderiam ser homens) julgavam os alunos imbecis: pediam que eles lessem estorinhas de estrelinhas do céu, de tartaruginhas ecológicas e menininhas de vestido azul.... As santas professoras mal sabiam que seus pupilos já tinham visto sexo ao vivo no computador, e se sabiam, desejavam reenviá-los à pureza infantil prefreudiana. Já adolescentes e críticos, minhas crianças ainda não se conformavam com a obrigação de aguentar as frases solenes de Peri e Ceci, tão inverossímeis, e as descrições altaneiras do faroeste colonial brasileiro. 
Não será por decreto que teens desse tipo, nascidos do útero frenético do computador e amamentados por games e videoclipes, apreciarão os intermináveis devaneios literários de outrora. Dirão vocês que eles não são a regra, tudo bem, mas como é que se poderia também esperar, num outro hipotético e contrastante contexto social,  que uma adolescente favelada, futura modelo-chuteira, dançante do créu, leia Machado de Assis, Camões, Grande Sertão Veredas, Dostoiévsky? A não ser que se imagine haver, perdido em alguma selva amazônica, algum índio puro e desimperializado do globo rural. Afora, evidentemente, a paradigmática cabocla Marina Silva. 
Mas tem solução se considerarmos a média da nossa clientela escolar. Eu usaria uma estratégia de choque. Levaria os alunos para bem longe da escola, talvez a um salão improvisado de teatro, e desenvolveria com eles numerosos exercícios de distanciamento, sem consulta à internet exceto quando absolutamente indispensável. Criaria uma espécie de big brother às avessas, pois sem público. Todos viveriam experiências cênicas de incorporação de ambientes e personagens distantes da vida presente: sem televisão, computador, geladeira, luz elétrica, hamburguer, leite de saquinho, celular, sofá, mamãe e papai. Experimentariam o silêncio do mundo prémoderno, a escuridão das noites de tochas, a solidão do ser desglobalizado.
Só no final dessa vivência cênicocorpórea eu voltaria a propor a leitura dos textos. É provável que, ao fim e ao cabo, apenas dois dos quarenta alunos passem a gostar de Alencar. O que, sem dúvida, é bastante compreensível no que respeita ao escritor cearense. Mas, se pelo menos um desse conjunto decidir sair do simulacro do real e viver teatralmente a ficção da vida,  então terá valido a pena a experiência.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Filosofia e despensamento

Na semana passada tivemos o último encontro da disciplina de pós-graduação em História (na Unesp-Assis), cuja temática foram as mutações contemporâneas relacionadas ao advento da cibercultura. Como havia anunciado o programa do curso neste blog, devo ao leitor um balanço, ainda que rápido do que foi discutido e o que pudemos concluir - é claro, provisioriamente.
A segunda parte da disciplina, sob minha responsabilidade (a primeira foi dada por Tania de Luca) teve como reflexão central a condição humana em nosso tempo de mudanças aceleradas resultantes do desenvolvimento tecnocientífico e sua aplicação na vida cotidiana. Questão evidentemente filosófica, mas também de alcance histórico, sociológico e antropológico.
Não será preciso dizer que a obra Condição Humana, de Hannah Arendt foi o ponto de partida e, sem dúvida, também o de chegada de todo o debate. Neste seu livro, publicado originalmente em 1958, se encontra uma elaboração teórica substancial e quase profética sobre o destino do homem em nossa época dominada pelas maravilhas tecnológicas, que nos libertam e, ao mesmo tempo, nos alienam do mundo.
Os autores analisados na sequência, ainda que não se confessem herdeiros do seu pensamento, confirmam muitas das hipóteses desalentadoras daquela teórica judia. Sob perspectivas diversas, demonstram a predominância, na atualidade, da tecnologia sobre a ciência, e do utilitarismo sobre o pensamento crítico. E é nas brechas desse descontrole que alguns buscam oferecer novos argumentos éticos e políticos compatíveis com os desafios enfrentados.
Lemos e discutimos, ainda, as teorias do transumanismo ou do pós-humanismo, que tem em Pierre Levi o seu principal representante. Embora sedutoras, se pôde notar como tais idéias revelam seu estreito compromisso com os princípios liberais, individualistas e competitivos capitalistas. Trata-se, além disso, de uma utopia formulada no interior das principais empresas de exploração da tecnociência que, a um só tempo, cuidam de criar e irradiar tal ideologia.
Encerrado o curso, restou porém o sentimento esquisito da inutilidade das nossas longas reflexões para os cursos de pós-graduação das atuais tecnociências humanas. Pois o que importa para estas são apenas os produtos rápidos do despensamento.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Apenas um bom livro de História

Pode parecer pouca coisa, mas ler um bom livro de História é reconfortante para quem, por força do ofício, participa com frequência de bancas de avaliação de textos acadêmicos (dissertações e teses) e emite pareceres sobre artigos científicos e projetos de pesquisa. E que, como eu, anda cada vez mais desencantado com o estado atual da arte historiográfica. Falo da brasileira, com a qual tenho mais contato, embora o mesmo sentimento também possa valer para a estrangeira que conheço.
Aliás, chamá-la de arte soa mesmo como um disparate. Não me aventuro em empregar outro termo (os que me vêm à mente são impublicáveis) para designar essa produção em série (pirataria, em muitos casos) de bagatelas, acelerada sobretudo desde os anos 90, quando o setor se profissionalizou sob a tutela dos orgãos oficiais de fomento à pesquisa.
Por isso tudo, é reconfortante ler um bom livro de História. Encontrei-o na livraria da Estação Barra Funda minutos antes de embarcar para mais uma longa viagem. Desconhecia o autor, não lera nenhuma resenha a respeito da obra. Foi o título - seguido de uma rápida folheada e da consulta ao sumário - que me chamou a atenção: A criaçao da juventude: como o conceito de teenage revolucionou o século XX, do jornalista inglês Jon Savage.
Não se trata de um trabalho acadêmico ou teórico com pretensão a revolucionar a historiografia, presunção que tantas vezes se encontra em teses. Nada disso. É simplesmente um livro escrito com elegância sóbria, sem sofisticação conceitual (o subtítulo pode ser enganoso) e documentado na medida certa. Tudo para contar a história da aparição dos vários segmentos de jovens urbanos - operários, delinquentes, rebeldes ou consumistas - na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos das últimas décadas do século XIX a 1945.
Nem cheguei à metade do volume, mas continuo bem-impressionado. Quando avançar na leitura, contarei os detalhes. Prometo.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Paixão e rebelião

"Nada pode dispensar a vida de ser absolutamente apaixonante" (G. Debord)

Prossigo na necropsia dos incorformistas. O corpo/espírito do dia é Guy Debord (1931-1994), autor do célebre livro A sociedade do espetáculo (1967), que também será discutido no meu curso da pós-graduação. A leitura de sua obra, juntamente com a de pensadores vindos por outros caminhos - como Hannah Arendt, Paul Virilio e Jean Baudrillard (ver posts anteriores)-, possibilita compreender o mais corrosivo diagnóstico já feito da sociedade contemporânea.
Embora a procedência e a decorrência das idéias de cada um sejam muito diferentes, o quarteto coincide na visão de uma humanidade contemporânea inteiramente alienada entre os artefatos da sua própria fabricação. Dessa verdade extraíram, no entanto, soluções bem díspares: a democracia inspirada no modelo grego antigo, sonhada pela discípula de Heidegger; o pacifismo como única alternativa à guerra total, para o urbanista francês; e o profundo niilismo, no caso do teórico do simulacro universal.
Debord, por sua vez, buscou incansavelmente encontrar brechas de rebeldia vital entre os entediados contempladores das imagens políticas, produtivas e de lazer pelo globo afora. Foi o único dos citados a partir da herança de Marx, o Marx hegeliano, relido à luz de Lukács. Permaneceu, porém, estranho e marginal não só às correntes políticas da sua época (os comunistas do P.C.F, os trotskistas, os maoístas, os anarquistas), como também ao circuito acadêmico e editorial francês.
Criou a Internacional Situacionista, sempre composta de grupos minúsculos que, entretanto, provocou numerosos escândalos políticos, situações de caso pensado, antes, durante e depois de 1968. Fez questão de se manter no anonimato, mas foi recuperado, a posteriori, como profeta e artífice da rebelião estudantil daquele ano, ainda que nem estudante tivesse sido. Foi, essencialmente, um expoente da rebeldia boêmia que marcou época e deixou sérias sequelas numa cultura que separa vida e aparência.
Se estranho foi, mais estranho ainda será a exposição da sua paixão na sociedade do espetáculo universitário.



segunda-feira, 12 de abril de 2010

O bruxo de Matrix

Outro dos meus pensadores prediletos, também escolhido para debater no curso, é o bruxo Jean Baudrillard, que já partiu para o inferno sideral (2007), mas enquanto vivo assustou muitas criancinhas ingênuas e bem-intencionadas do nosso mundo acadêmico.
Suas idéias são próximas às de Paul Virilio, embora o iconoclasta fosse ainda mais pessimista que o primeiro. Enquanto o teórico da velocidade aposta(va) no pacifismo como forma de deter a máquina tecnológica descontrolada, Baudrillard não oferecia qualquer alternativa de redenção ao mundo tecnocrático.
Sociólogo, poeta e fotógrafo, seu primeiro estudo foi O sistema dos objetos (1968), inspirado na obra de Roland Barthes. A partir desse livro ele ampliou sua reflexão sobre a a perda de referência do real na cultura contemporânea. Pensador eclético e profético, Baudrillard não deixou pedra sobre pedra. Demoliu tudo o que forma nossa vã filosofia fim de século XX: democracia representativa, comunismo, crença no social e na tecnociência, maravilhas da internet, espetáculos de guerra e do terrorismo. Reduziu as instituições e o imaginário moderno ao universo da pura simulação. Bem ou mal, sua obra gerou até Matrix, um dos nossos últimos cults cinematográficos, igualmente reduzido às cinzas do simulacro universal.
Prá que discutir sua obra, especialmente a que fala do fim do social, caraca? Ainda mais em ano eleitoral, quando eu mesmo estou mais que contraditoriamente engajado no debate político em curso? Que figura confusa sou? Ora, não me peçam coerência. Estarei sempre dividido entre o otimismo da vontade e o pessimismo da razão. É o que posso.

"Todo o confuso amontoado do social se move em torno desse referente esponjoso, dessa realidade ao mesmo tempo opaca e translúcida, desse nada: as massas. Bola de cristal das estatísticas, elas são ‘atravessadas por correntes e fluxos’, à semelhança da matéria e dos elementos naturais. Pelo menos é assim que elas nos são representadas. Elas podem ser ‘magnetizadas’, o social as rodeia como uma eletricidade estática, mas a maior parte do tempo se comportam precisamente como ‘massa’, o que quer dizer que elas absorvem toda a eletricidade do social e do político e as neutralizam, sem retorno. Não são boas condutoras do político, nem boas condutoras do social, nem boas condutoras do sentido em geral. Tudo as atravessa, tudo as magnetiza, mas nelas se dilui sem deixar traços. E na realidade o apelo às massas sempre ficou sem resposta. Elas não irradiam, ao contrário, absorvem toda a irradiação das constelações periféricas do Estado, da História, da Cultura, do Sentido. Elas são a inércia, a força da inércia, a força do neutro. É nesse sentido que a massa é característica da nossa modernidade, na qualidade de fenômeno altamente implosivo, irredutível a qualquer prática e teoria tradicionais, talvez mesmo irredutível a qualquer prática e a qualquer teoria simplesmente. Na representação imaginária, as massas flutuam em algum ponto entre a passividade e a espontaneidade selvagem, mas sempre como uma energia potencial, como um estoque de social e de energia social, hoje referente mudo, amanhã protagonista da história, quando elas tomarão a palavra e deixarão de ser a ‘maioria silenciosa’ – ora, justamente as massas não têm história a escrever, nem passado, nem futuro, elas não têm energias virtuais para liberar, nem desejo a realizar: sua força é atual, toda ela está aqui, e é a do seu silêncio. Força de absorção e de neutralização, desde já superior a todas as que se exercem sobre elas. Força de inércia especifica, cuja eficácia é diferente da de todos os esquemas de produção, de irradiação e de expansão sobre os quais funciona nosso imaginário, incluindo a vontade de destruí-los. Figura inaceitável e ininteligível da implosão (trata-se ainda de um processo?), base de todos os nossos sistemas de significações e contra a qual eles se armam com todas as suas resistências, ocultando o desabamento central do sentido com uma recrudescência de todas as significações e com uma dissipação de todos os significantes, O vácuo social é atravessado por objetos intersticiais e acumulações cristalinas que rodopiam e se cruzam num claro-escuro cerebral. Tal é a massa, um conjunto no vácuo de partículas individuais, de resíduos do social e de impulsos indiretos: opaca nebulosa cuja densidade crescente absorve todas as energias e os feixes luminosos circundantes, para finalmente desabar sob seu próprio peso. Buraco negro em que o social se precipita.”
Jean Baudrillard – À sombra das maiorias silenciosas

sábado, 10 de abril de 2010

Janela indiscreta

Esta parada imprevista que a sorte me destinou tem sido providencial para reler um dos meus pensadores prediletos desde os anos 80: Paul Virilio, autor, dentre outros, do livro Guerra e cinema, que selecionei para discussão no curso em Assis. Teórico das conexões entre velocidade, tecnologia, política e guerra, este arquiteto, urbanista e pacifista francês, nascido em 1932, desvenda em sua obra a vertigem absurda da vida contemporânea. Vertigem desencadeada pela aceleração de todos os processos artificiais criados pelo homem.
E é engraçado perceber como a fratura de um simples tornozelo nos torna, por uns dias, inteiramente estranhos a esse mundo desenfreado. Inesperadamente, somos relegados à imobilidade, situação que, entretanto, não proporciona a quietude da contemplação do cosmo, como os gregos pregavam, nem a fuga eremita para o deserto, como aquela que os cristãos antigos empreendiam. Deserto e cosmos são hoje espaços saturados de máquinas e imagens invasoras, espiados pelos milhões de satélites espalhados na terra e nos ares. Eu mesmo sou um desses espiões. Estrategicamente postado neste laptop bélico, sou fadado a transformar minha meditação solitária numa viagem coletiva alucinada por lugares ininterruptamente devassados.
Resta apenas o estranhamento, a perplexidade, a ausência de uma resposta para o inevitável e daí. Sei que Virilio é um pensador cético em relação à tecnologia moderna, nela incluindo a internet. Sua aparição, segundo ele, é uma das mais eloquentes expressões da guerra total que nos move e mobiliza a uma espécie de precipício. Sei também que outros autores do curso verão na tecnologia moderna exatamente o contrário disso - um veículo para a reinstauração das utopias democráticas universais. Dirão ainda que o urbanista francês é apenas mais um dos apocalípticos na cena filosófica desde o final do século passado.
Caros alunos, se lerem este post, só posso dizer que não facilitarei o problema com alguma conclusão. A única coisa que consigo deduzir é que, pelo menos uma vez na vida, quebrar o tornozelo tem a vantagem de dar um tempo para leituras como a que ora faço, mesmo que elas não ofereçam qualquer resposta. Aconselho a todos. 


quinta-feira, 8 de abril de 2010

Filosofia de muletas

Dia 22 deste mês começo minha parte no curso de pós-graduação em História (Assis) sobre o ler, o escrever e o pensar no mundo da cibercultura (título que ficou meio bobo diante do que foi, posteriormente, proposto para debate). A primeira parte do programa foi dada pela minha colega Tania Regina de Luca, que optou por uma abordagem mais propriamente histórica da questão. Quanto a mim, que sou um tanto cético em relação à capacidade reflexiva do saber histórico, malgrado seja profissionalmente um historiador, escapei para uma ênfase filosófica, se é que se possa chamar por esta designação a filosofia de pés quebrados, precária e transitória, característica da atualidade. E para bem representar nossa condição humana no presente momento lecionarei também de muletas.
Por falar em condição humana, este é o nome da primeira obra a ser discutida no curso, pela qual Hannah Arendt trouxe à luz, de forma pioneira, uma reflexão decisiva sobre o mundo inteiramente artificial profuzido pelo homem moderno. Um mundo rebelde à própria existência humana, do qual o ciberespaço é uma das suas manifestações. Segundo a filósofa, "o mundo - artifício humano - separa o homem de todo ambiente meramente natural; mas a vida, em si, permanece fora desse mundo artificial, e através da vida o homem permanece ligado a todos os outros organismos vivos. Recentemente, a ciência vem se esforçando por tornar artificial a própria vida, por cortar o último laço que faz do próprio homem um filho da natureza".
Estas palavras proféticas foram escritas em 1958, quando o homem ainda não chegara à lua e nem os bebês de proveta à terra. De lá para cá, a tecnociência avançou de forma avassaladora na criação do mundo artificial, a ponto de se falar, nos dias de hoje, não mais da condição humana, mas da geração de uma pós-humanidade.
É isso que pretendemos sondar apelando à nossa atual filosofia de muletas, notoriamente aquém dos desafios da hiperrealidade presente. Teremos de ler vários outros textos, ora otimistas ora pessismistas quanto ao futuro/que já é, mas não sei aonde poderemos ir. Apesar disso, vamos juntos debater, ainda que apoiados em rudimentares aparelhos ortopédicos enquanto sonhamos com as próteses modernas dos cyborgs.
E embora este não seja, como tantas vezes tenho dito, um blog institucional ou acadêmico, divulgo excepcionalmente aqui a bibliografia do curso para quem quiser fazer bom uso dela no ciberespaço:

VIRILIO. Paul. Guerra e cinema. São Paulo: Scritta Editorial, 1993.
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1983.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
BAUDRILLARD, Jean: À sombra das maiorias silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas. São Paulo: Brasiliense, 1985.
LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998
NOVAES, Adauto (org.). A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC SP, 2009.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A mistificação dos desmitificadores

A novelha geração de intelectuais conservadores está toda prosa nas telinhas globobrasileiras. Uma das suas idéias fixas é negar as antigas distinções maniqueístas, presentes nos livros de História, entre conservadores e progressistas, direita e esquerda, mocinhos e bandidos, bons e maus, dominantes e dominados. O assunto não é novo no mundo acadêmico, ao contrário - desde as três últimas décadas do século XX é o que predomina nas ciências humanas sob o rótulo da desconstrução. 
Mas, apesar de certo desgaste resultante da proliferação de textos e falas desse teor, continua a ser um bom expediente para se alcançar a fama midiática, que o mais das vezes passa longe dos muros universitários. Derrubar mitos e revelar supostas verdades ocultas da sociedade é tema sempre atraente, escandaloso, ainda mais em época pré-eleitoral, quando as biografias de personagens do presente e do passado não passam ilesas no tiroteio pelo poder.
Não se quer dizer com isto que os intelectuais conservadores sejam dispensáveis no debate político. Algumas vezes eles deixam sua contribuição, sobretudo, quando arquitetam teorias sólidas e inovadoras, ou ainda quando expressam sua visão de mundo com criatividade artística. Há vários exemplos de filósofos, historiadores, escritores e artistas plásticos cujas idéias políticas suscitaram polêmicas proveitosas. Raymond Aron, na França, se notabilou durante décadas pela oposição a Sartre, confronto que motivou um debate fecundo. Mas não é preciso ir longe: o Brasil também dá exemplos de notórios conservadores, alguns deles assumidamente reacionários, que fincaram raízes na cultura. Basta lembrar de Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Paulo Francis, entre outros.
Nem todos os conservadores, contudo, legaram obra relevante para a posteridade. Foi o caso dos novos filósofos franceses, com Bernard-Henry Lévy à frente, que passaram tão rápido quanto a moda da estação. Afoitos para alcançar o sucesso, afloraram e evaporaram na grande mídia durante o apogeu da era neoliberal. Faço votos que o mesmo não ocorra com a tal novelha geração brasileira patrocinada pela Globo - e por outros canais explicitamente partidários.
Ontem à noite, Mônica Waldvogel entrevistou dois dos seus expoentes no programa Entre Aspas, transmitido pela Globonews: o jornalista Leandro Narloch e o historiador Marco Antônio Villa, autores, respectivamente, dos livros Guia politicamente incorreto da História do Brasil e História do Estado de São Paulo, publicados há poucos meses. Em uníssono, ambos se empenharam em decompor a vasta galeria de mitos inventados, segundo eles, pela esquerda nacional: Zumbi, Aleijadinho, o samba, Getúlio Vargas, o binômio colonial senhores/escravos, a guerrilha do Araguaia, a democracia de esquerda e por ai afora.
Narloch parece ser novo no ramo, mas já desponta de forma alvissareira nos auditórios da direita, hoje tão carente de intelectuais orgânicos para a divulgação dos seus projetos. Villa, por seu turno, já é velho de guerra no desmonte dos mitos esquerdistas, missão que iniciou com a biografia de Jango e culminou na justificação do golpe de 1964 e da ditadura militar.
Não vale a pena seguir os meandros argumentativos da dupla, aliás, elogiados pela entrevistadora como expressão eloquente do que há de mais moderno na historiografia. É interessante, porém, relembrar a receita de método histórico exposta por Villa (deixemos o jornalista em paz neste aspecto que não diz respeito à sua profissão) quando indagado sobre como chegou às suas descobertas. Respondeu ele que cabe ao pesquisador se ater aos fatos e documentos, como diria um exímio historiador metódico, dito positivista, do século XIX. Exemplos de fatos e documentos? Os parcos tiros dados pelos guerrilheiros na guerrilha inventada pela esquerda e o exíguo número de mortos em seus combates ilusórios, de acordo com as fontes divulgadas pelos órgãos repressivos da ditadura.
Hobsbawm, um dos inventores da noção de tradições inventadas, certamente ficaria muito descontente com um uso tão banal de seu inteligente construto. Mas o que poderia esperar de um historiador que, camuflado pela capa da imparcialidade do saber histórico, trabalha incansavelmente em prol do projeto neoliberal de José Serra, recuperado dos ancestrais mitos bandeirantes? Ou do jornalista que afirmou, em tempo real, preferir os mitos da direita?
A novelha geração dos intelectuais conservadores poderá ser, um dia, tema fascinante de estudo sociológico - se é que atingirá no futuro algum patamar digno de mitologia. Haverá muita matéria e muitos nomes para analisar, geralmente originários dos bancos da USP durante as décadas de 1970 e 1980, época que gerou o tipo intelectual aparentemente realista, na verdade, um pragmático inteiramente comprometido com a ordem e o poder dominante arcaico. Aos citados devem ser somados outros, entre os quais, o dom quixote das gotas de sangue branco, derramado pela cotas raciais, e a anta-epígono de Paulo Francis, ancorada na coluna da Veja, cujo nome me recuso a dizer para terminar com alguma leveza de alma este post.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Ciberportela

Disse Pierre Levy: "O enigma da paz permanece. Decifremos, portanto, o linear A, ou melhor, inventemos a ideografia dinâmica, escrita do futuro, a superlíngua dos coletivos inteligentes. Em vez de tornar mais espessas as fortalezas do poder, refinemos a arquitetura do ciberespaço, o último labirinto. Sobre cada circuito integrado, sobre cada chip, vê-se e não se sabe ler a escrita secreta, o emblema complicado da inteligência coletiva, mensagem irênica dispersa a todos os ventos".
A Portela já desvendou o enigma, por isso, desde já, Ciberportela. Pacífica, pacificada. Com o amparo da polícia das favelas e da fábrica de computadores Positivo. Não importa. Passou linda na avenida a desfilar suas negras e negros de prata conectados à inteligência coletiva. Passou otimista no futuro dos morros pobres de chips espetaculares. Passou como uma águia robótica angelical, contra todos os poderes e portadora de todos os fetiches da mercadoria. 
Esqueçam o post anterior e o curso projetado para discutir os destinos do póshumano. A pósgraduação já não é mais necessária diante do pophumano. A tecnologia do carnaval ultrapassou sua rodagem reta e lenta. Suas ondas cibernéticas dispensam o pensamento linear filosófico, histórico, antropológico, psicanalítico.
Ave, águia da ciberportela.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A função consoladora da História

Como pretenso ovelha negra da família, às vezes me rebelo contra o papo institucional da minha profissão - para não dizer disciplina ou discurso, palavras muito pomposas e autocentradas. Estou passando por um momento desses, exatamente agora em que preparo o roteiro de um curso na pós-graduação para o presente semestre. Um curso experimental, diga-se de passagem, sobre o que mudou e muda na apreensão do tempo, na escrita, na leitura - e por que não dizer - na própria natureza do pensamento histórico com o advento e aceleração das tecnologias, em especial, cibernéticas.
Ocorre que não quero ir pelo caminho da História das práticas de leitura, hoje uma tendência carne de vaca na historiografia, que pouco acrescenta ou instiga. De posse desta negativa, fico a perambular por livros de outras áreas (filosofia, antropologia, psicanálise, por exemplo), que embora não fixem verdades, facilitam o livre pensar, o imaginar, o refletir sem freios. 
Tem hora que eles desembocam em especulação futorológica (que mal há nisso?), noutras afiam utopias semipossíveis ou, ao contrário, azedam os ingredientes do pessimismo. Apesar disso, bons autores de uma ou de outra tendência concordam no alerta de que já vivemos a transição para uma pós-humanidade cujo impulso intrínseco desloca, de forma contínua e veloz, nossas antigas e ainda atuais modalidades de lidar com a escrita, a leitura e a percepção do tempo histórico. Para além do que disseram as vanguardas modernistas das artes, da literatura e da física.
Só isso já é um imenso desafio para o historiador de hoje, inteiramente desprovido de ferramentas analíticas que possibilitem analisar um tal fenômeno que não nos é exterior. O que oferecem os historiadores a semelhante desafio, além das velhas aberturas periféricas da Nova História? Nada, a não ser a solução-clichê de historicizar (palavra horrível) os fatos e os processos históricos. O que equivale a dizer, situar as mudanças técnicas, sociais e culturais em seus contextos, compreender sua dinâmica. Nada mais. 
A História, para os antigos, servia como exemplo. De vida para seguir como modelo ou de experiência a ser repelida no presente. Para o indivíduo contemporâneo, que se descarta a cada dia de tecnologias obsoletas - cds, computadores, gravadores, ipods e ipads - assim como rejeita a importância de qualquer valor do passado (exceto o seu atributo turístico), não há lição a seguir. 
O que será, então, historicizar senão uma maneira de se enraizar na ordem do já vivido, na medida em que só permite falar do que foi, nunca do que é ou poderá ser? Não teria a História se transformado num saber puramente consolador, destituído de exemplo e de potência de vida? Pergunta mais velha que a própria História, já respondida tem mais de um século por Zaratrusta.