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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Estranha forma de vida

Que pena! Já não somos mais os únicos no universo. A NASA descobriu uma nova forma de vida inteiramente diferente daquelas que conhecemos. Nós, que vivemos de fósforo, agora nos defrontaremos com seres viventes de arsênico.
Nunca gostei de arsênico. Sempre pensei que era coisa de suicida, tipo que não faz o meu gênero. Fumante inveterado, sinceramente ainda prefiro o metabolismo fosfórico, ainda que no dia-a-dia use o moderno isqueiro.
Os cientistas comemoram a descoberta, que levará ao tão esperado contato com ETs e  discos voadores. E virão novas formas de colonização dos moluscos estrambólicos do megaespaço. Serão bons consumidores para alimentar nosso crescimento econômico? Aposto que já tem gente prontinha para investir no novo setor.
Tenho mesmo é pena da Hannah Arendt, que detestava a frenética busca humana por outros mundos. Ela perguntaria: Não basta viver aqui? Haverá alguma novidade em outro tipo de vida? Descobriremos algo tão melhor assim para nos inspirar?
Creio que não. A vida é pequena, insignificante, boba demais, malgrado nossos egos enormes. Por isso não vale a pena passar a vida especulando besteiras. O fato é que nem somos capazes de controlar o que temos e, sobretudo, o que somos...
Francamente! Melhor é ficar do jeito que estamos, com nosso metabolismo aceso por míseros palitos de fósforo, sem invejar o dos outros, com nosso coração a bater independente, nesta forma humana - esta, sim, a mais estranha forma de vida:

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Pausa no blog

Meus amigos e amigas

Minhas postagens no blog não estão muito assíduas nas últimas semanas. E provavelmente terei de dar uma pausa, espero que por pouco tempo.
A razão é que estou em tratamento médico. Lembram-se do começo do ano, quanto fraturei um tornozelo e passei por uma cirurgia? Pois é: o osso colou bem, mas a cicatrização não funcionou perfeitamente. Um dos pinos se quebrou, provocando inflamação e infecção. Assim que isso for debelado, haverá necessidade de nova cirurgia para retirar os pinos.
E assim ando meio desanimado para escrever. Portanto, os posts serão mais esporádicos. Conto com a compreensão de vocês.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ne me quittes pas

Hoje, nada. Ao volante, por quatrocentos quilômetros, escrevi duas matérias mentalmente. Aliás, sempre faço minha escrita inicial na cabeça, com pontos, vírgulas e demais símbolos de sentimento. Um post seria sobre política, outro sobre profissão. O primeiro, obviamente, trataria das questões do segundo turno para a presidência - minha modesta contribuição ao debate. O previsto para o dia seguinte seria mais pessoal, mas nem tanto: envolveria uma tomada de decisão, um fechar a porta definitivamente, um não olhar pra trás. Prometo ainda publicá-los aqui.
Hoje, tudo. Véspera do dia da ruptura, meu coração anda meio doído, embora calmo e racional. Por isso, nada de política. Preciso de um pouco de lirismo, acho que muita gente também, especialmente depois das emoções de ontem. 
Assim, ofereço uma das minhas canções preferidas, acho que igualmente de muita gente pelo mundo. Ela que talvez seja considerada uma das maiores do cancioneiro universal. Não planejei trazê-la aqui. Ela é que estranhamente me cai por acaso toda vez que sangro: Ne me quittes pas, de Jacques Brel, que foi gravada por grandes intérpretes em todos os continentes: Edith Piaf, Nina Simone, Nacha Guevara, Sting, só pra lembrar alguns. No Brasil, há interpretações memoráveis na voz de Cauby Peixoto, Ângela Ro Ro e, mais recentemente, de Maria Gadu, que deu um molejo moderno e nacional à música.
Já que não posso postar todas as interpretações, deixo aqui três das que mais aprecio: do próprio compositor, da inesquecível Maísa, e de uma Alcione já eternizada de tão cult ...



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Detrito das palavras

A tela em branco, arrisco, mancho a pureza da página, deleto, nada, nenhuma palavra, nenhuma sílaba me encanta ou faz sentido, a vírgula, o ponto, apenas desenhos abstratos, e todos esses textos que ainda sem nascer pendem em clips nas folhas da agenda, previstamente e nos contratos, antecipações do calendário, agosto, setembro, outubro, dezembro, não, repetições de tantos outros momentos de dor, sim, de toda dor da escrita se ela for sincera, sofrerão os verdadeiros escritores, pergunto, sofrem e gozam, extraem suas palavras a forceps como eu, indago, e se ainda fossem palavras poéticas, merda, são apenas junções tipográficas sem alma, artigos sem subjetividade, textos da semvida acadêmica, coisas de teses, resenhas, e ainda assim sinto, dilacero, desvio o olho para o sorriso forçado do Geraldo na televisão, fujo da torpeza e me refugio aqui onde jogo meus detritos mais honestos, luto como Carlos Drummond mas só, sem sua musa imortal:

"Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida".

sábado, 7 de agosto de 2010

De miolos bem lavados

Esvaziei minha cabeça nestes dias. A mente oca também é ocasionalmente necessária. Escrever sobre o quê? Nada me interessava. As palavras, pelo menos para mim, exigem alguma paixão, algum ódio, algum amor, um pouco de complacência, uma intransigência absoluta. Nenhum desses sentimentos me batia por dentro.
Escrevi um rascunho sobre o debate eleitoral dos presidenciáveis. Parti das idéias de Slavo Zizek para indagar se algum candidato tentava arriscar o impossível, como ele propõe ao nosso tempo. Obviamente, o pressuposto era inaplicável em nosso caso. Além disso, não soube como concluir o texto, sou péssimo analista político. Nem sei o qual é o limite entre o possível e o impossível.
Por isso decidi esvaziar a cabeça por uns dias. Fui ao cinema ver O escritor fantasma. Roman Polansky arrasa, como sempre, livre ou preso. Preso na liberdade. Mas o filme me fez bem. Me descobri o próprio fantasma, vazio de palavras. Afinal, conforme sugere Lacan, tentemos lavar um pouco mais nossos miolos. Sugiro a todos uma passagem por essa condição humana:

sexta-feira, 14 de maio de 2010

La vida es mas compleja de lo que parece

Nada a dizer hoje. A bocametralhadora deve calar. O fogo amigo crepita, seduz, atrai, mata. Nenhum antídoto será capaz de aplacá-lo, senão o afastamento. Essa dor se carrega em silêncio. Só posso vestir as palavras de quem já disse o essencial numa melodia. Fale por mim, Jorge Dextler: