Do alto, o sinistro do mundo fica mais belo. Nada a dizer, só contemplar (para Elisa, devorada pelos cães humanos)
quinta-feira, 8 de julho de 2010
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Blues londrino (1983)
Londrina da minha janela
cidade do Paraná
Billie Holiday canta pra ti
estranhamente aqui
Quem sabe Londres fosse
coração para o meu corpo
eu não precisaria enfim
ser professor de mim
Mas não tu
cidade província
roteiro de viajante
se parecesses Brasília
minha primeira família
São Paulo ao menos agasalha
este país esta falha
de um projeto humano
sem história e sem dono
Já sei
tu não serás meu limite
meu porto é adiante acredites
Entrementes
Billie Holliday cumpre sua sina
nesta ausente Londrina
domingo, 4 de julho de 2010
Um objeto para o lixo
Que estranha é essa profissão de historiador! Tanta coisa mais interessante do dia-a-dia pra comentar - o moderno GPS que acabei de comprar não sei pra quê, a festa frustrada do hexa, o gostinho de vingança (que horror!) pela derrota dos hermanos, a gana africana insatisfeita, o suspense em torno do desaparecimento da amante do goleiro Bruno, o caso da advogada Mércia, Serra e seu índio de araque - e eis que o fantasma do passado não me deixa em paz.
Sou forçado a concluir: o historiador não se dá bem com a crônica do cotidiano. A verdadeira crônica, dizem os melhores escritores, versa sobre a banalidade do hoje em dia, procura algo de sugestivo ou belo no prosaico do imediatamente vivido. Ao contrário disso, o historiador, assim como o psicanalista que vasculha nas camadas do presente as irreconciliáveis fantasias primitivas do ser, é um eterno escravo do tempo remoto.
Portanto, me perdoem os leitores deste blog que talvez esperassem algum texto mais livre, contemporâneo e ameno nesta tarde gostosa de domingo. Mas o fato é que, ao revirar minha biblioteca à procura de um livro, acabei deparando com um opúsculo publicado em 1973 pelos estudantes de engenharia do Centro Acadêmico Armando Salles Oliveira da USP, campus de São Carlos. E já tem umas horas que esse simples caderninho mal-encadernado, uma cópia datilográfica já meio degringolada e mofada tem tomado toda minha atenção.
Que inferno! Em outras mãos isso já teria ido para o lixo faz tempo. Não só pelo aspecto deteriorado do objeto, mas também por seu conteúdo: extratos de textos sobre a Reforma Universitária no Brasil, abrangendo o período de 1961 à data da publicação. Tudo cheira a velharia anacrônica: centros acadêmicos, UNE e outras organizações estudantis, panfletos e cadernos de crítica ao sistema universitário, graduandos de engenharia metidos na política, debate a respeito da relação entre universidade e sociedade. Só para um historiador fora do mundo real isso pode fazer algum sentido, ter alguma importância.
Apesar desta triste constatação, continuei a ler o caderninho cujo índice é este: "O movimento pela Reforma Universitária; Origens da Reforma Universitária do Govêrno: o Plano Acton, Os acordos Mec-Usaid; A elitização da Universidade: A barreira do vestibular, Extinção da gratuidade do ensino, Orçamentos para a educação, Fundações; Reforma Universitária e Tecnologia Nacional; Engenharia Operacional; Representação Estudantil; Autonomia Universitária; Acordos sobre pesquisas estratégicas: o plano Camelot; Uma Pequena Análise".
Das suas páginas consta, entre outros extratos, uma Carta do Paraná, na qual os estudantes reunidos num Conselho Nacional (1962, Curitiba), apresentam os objetivos da sua luta: "a) A Reforma Universitária pretende fazer com que a Universidade seja para a sociedade o cérebro pensante, fonte constante de elementos para uma consciência crítica em relação à realidade social para que a Universidade seja o centro propulsor das culturas elaboradas com valores do próprio povo; b) Conseguir uma visão global da sociedade em que vive, não limitando-se somente a uma visão parcial de sua profissão: o futuro profissional não seria somente uma peça numa máquina instalada, e sim seria uma visão crítica de seu desenvolvimento social".
Tais idéias podem parecer hoje inteiramente descabidas, utópicas, ultrapassadas. Por exemplo, a universidade cérebro-pensante da sociedade, que bobagem ridícula! E por isso destinadas ao descarte, quando muito a alguma coleção de curiosidades como as de carros e brinquedos antigos.
Não para um historiador atento, no entanto. Na contracorrente dos que pregam a desimportância do passado, ele tentará convencer que esses sonhos têm tudo a ver com os desafios educacionais, científicos e sociais do presente. Que o debate brasileiro atual sobre o papel da universidade retoma temas daqueles tempos de antanho. Coisas mal-resolvidas em quarenta anos, dilemas que em nossos dias encontram respostas no PROUNI, nas políticas de cotas, na criação de um novo sistema de ingresso universitário, no fortalecimento e na ampliação do sistema universitário federal, no incremento do ensino técnico.
Foi por isso que, em vez de enviar esse objeto embolorado para a reciclagem de papéis (como vêem, também participo dos esforços em prol da melhoria do futuro meio ambiente), decidi lhe dar uma sobrevida, devolvendo-o à estante das palavras vivas.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
O circo eletrônico dos horrores
Madrugada adentro, o sono que não vem, a televisão ligada, nenhum documentário ou filme interessante, assassinatos cansados de superexposição, gols reprisados em infinitos ângulos, sexo semiexplícito em todas as posições, só os padres, os pastores e as pastoras eletrônicas gritam medonhamente no ar para a multidão de crédulos medonhos, os miseráveis da cultura. No ziguezague da tv aberta, canal por canal, craqueiros seguem Jesus, a água abençoada dissolve o câncer, a obra de deus opera milagres na boca de estômago da velha, na hérnia de disco do pedreiro, no casal em pé de guerra. A palavra persevera, tira do fundo do poço, cura depressão e síndrome do pânico, desfaz encosto, a bispa fajuta vende terapia por cartão de crédito, o ex-desempregado testemunha o carro novo, a casa própria, a tv digital, a cantora gospel cobra pelo divino ridículo, as páginas do antigo testamento guardam milhões de notas dizimais. O homem de batina reza vinte vezes a mesma oração ao pé da virgem de barro, benze o copo dágua que duplica na mão do bispo de terno-e-gravata do canal vizinho, o obreiro e a pastora comercializam o barro e o líquido do rio jordão. O mais primitivo, o mais anímico, o mais supersticioso, o mais ignorante, o mais abjeto do homem ressurge do fundo humano, brota no eterno grotão da ignorância brasileira. Sem fundamentalismo teocrático, não!, sem transcendência prolifera como as baratas crescem no esgoto do país que nunca se completou como república laica ou positivista, que vestido de moderno, teima em permanecer na treva da anticivilização, antes das luzes da ciência, da revolução e da laicidade. E que se perpetuará evangelicamente pelas novas gerações, como o tumor malcurado dos pastores, enquanto os ares, as ondas e os satélites estiverem nas mãos dos criminosos da religião. Pois não bastam novos postes de eletricidade, nem mais escolas ou computadores, não! Nenhum ensino, por mais equipado e valorizado será capaz de competir com esse circo eletrônico de horrores, patrocinado por concessões públicas e justificado pelas alianças políticas assinadas sob narizes tapados e olhos vendados. Pois nenhuma cidadania ou consciência poderá se erguer nessa anticultura oficializada. Pois nenhuma potência nascerá desse impulso mortífero do mercado religioso. Não adianta ocultar: o centro do dilema brasileiro não é a questão educacional, esse discurso fácil e inexequível nas condições em que vivemos. A questão nacional é a reforma política, a verdadeira reforma republicana!
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Observatório do mundo
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Filosofia e despensamento
Na semana passada tivemos o último encontro da disciplina de pós-graduação em História (na Unesp-Assis), cuja temática foram as mutações contemporâneas relacionadas ao advento da cibercultura. Como havia anunciado o programa do curso neste blog, devo ao leitor um balanço, ainda que rápido do que foi discutido e o que pudemos concluir - é claro, provisioriamente.
A segunda parte da disciplina, sob minha responsabilidade (a primeira foi dada por Tania de Luca) teve como reflexão central a condição humana em nosso tempo de mudanças aceleradas resultantes do desenvolvimento tecnocientífico e sua aplicação na vida cotidiana. Questão evidentemente filosófica, mas também de alcance histórico, sociológico e antropológico.
Não será preciso dizer que a obra Condição Humana, de Hannah Arendt foi o ponto de partida e, sem dúvida, também o de chegada de todo o debate. Neste seu livro, publicado originalmente em 1958, se encontra uma elaboração teórica substancial e quase profética sobre o destino do homem em nossa época dominada pelas maravilhas tecnológicas, que nos libertam e, ao mesmo tempo, nos alienam do mundo.
Os autores analisados na sequência, ainda que não se confessem herdeiros do seu pensamento, confirmam muitas das hipóteses desalentadoras daquela teórica judia. Sob perspectivas diversas, demonstram a predominância, na atualidade, da tecnologia sobre a ciência, e do utilitarismo sobre o pensamento crítico. E é nas brechas desse descontrole que alguns buscam oferecer novos argumentos éticos e políticos compatíveis com os desafios enfrentados.
Lemos e discutimos, ainda, as teorias do transumanismo ou do pós-humanismo, que tem em Pierre Levi o seu principal representante. Embora sedutoras, se pôde notar como tais idéias revelam seu estreito compromisso com os princípios liberais, individualistas e competitivos capitalistas. Trata-se, além disso, de uma utopia formulada no interior das principais empresas de exploração da tecnociência que, a um só tempo, cuidam de criar e irradiar tal ideologia.
Encerrado o curso, restou porém o sentimento esquisito da inutilidade das nossas longas reflexões para os cursos de pós-graduação das atuais tecnociências humanas. Pois o que importa para estas são apenas os produtos rápidos do despensamento.
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Exorcismos historiográficos e acadêmicos
sábado, 26 de junho de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Serra na televisão: sem roda e sem vida
Não sei se vocês viram a entrevista de Serra no programa Roda Viva, mas eu vi. É bem verdade que foi uma experiência torturante aguentar seu tom monocórdico, sua fala prepotente e sua antipatia. Apesar disso, consegui chegar até o fim, embora me indagando a todo o momento se a minha reação negativa diante do candidato resultava do mero preconceito, da paixão irracional ou outras coisas que tais. Passados dois dias, pensados e pesados os prós e contras, concluo que não. O cara é mesmo ruim.
Prá começar, o programa não foi transmitido ao vivo, o que pode levar a supor que tenha sido editado. Além disso, os sabatinadores, incluindo o próprio mediador - Heródoto Barbeiro -, pareciam fazer questão de levantar a bola pro Serra chutar, bem no clima da copa do mundo. Mesmo assim, diversas vezes o tucano respondeu aos amigos com irritação e impaciência.
As perguntas foram bastante convenientes ao entrevistado, girando basicamente em torno de temas contábeis. O candidato aproveitou para dar aulas de economia, já que se considerada economista. Nem por isso foi capaz de apresentar um projeto econômico alternativo convincente. Saiu pela tangente no que diz respeito às privatizações, especialidade do seu partido, e deu a entender que vai estender a malha de pedágios exorbitantes pelo país. Quanto às políticas sociais, comprometeu-se a ampliá-las, mas nós sabemos muito bem como o PSDB trata disso. Quem quiser que se engane.
As perguntas foram bastante convenientes ao entrevistado, girando basicamente em torno de temas contábeis. O candidato aproveitou para dar aulas de economia, já que se considerada economista. Nem por isso foi capaz de apresentar um projeto econômico alternativo convincente. Saiu pela tangente no que diz respeito às privatizações, especialidade do seu partido, e deu a entender que vai estender a malha de pedágios exorbitantes pelo país. Quanto às políticas sociais, comprometeu-se a ampliá-las, mas nós sabemos muito bem como o PSDB trata disso. Quem quiser que se engane.
No capítulo da política externa, repetiu as críticas surradas à atual diplomacia brasileira. Qual a sua proposta? Nada disse, nem precisava: leia-se, nas entrelinhas, o alinhamento sem tirar nem por aos interesses do grande Império.
E sobre educação? Reiterou as falácias que anda propangandeando pela televisão: ênfase no ensino técnico (que o governo federal tem incentivado de maneira muito mais substancial), duas professoras (sendo uma estagiária) no primeiro ano do ensino fundamental (medida apenas cosmética), bônus para professores e funcionários das escolas com melhor desempenho (política duvidosa, ineficaz e superficial). Que o digam os professores, tratados a pão e água nesta interminável era tucana que praticamente destruiu o ensino público paulista.
Serra também falou de segurança pública e de combate ao narcotráfico, como se tivesse obtido resultados, ao menos, satisfatórios nesse tocante em São Paulo. Os policiais, obrigados a comprar suas próprias botas para trabalhar, poderão respondê-lo à altura.
Serra também falou de segurança pública e de combate ao narcotráfico, como se tivesse obtido resultados, ao menos, satisfatórios nesse tocante em São Paulo. Os policiais, obrigados a comprar suas próprias botas para trabalhar, poderão respondê-lo à altura.
Assim transcorreu o Roda Viva, sem roda e sem vida, como um espelho do pálido candidato. Não é à toa que Dilma Roussef já apareça bem à frente nas pesquisas eleitorais. O seu nome passou a ser a expressão do avanço de um projeto nacional que se iniciou com Lula e do qual a maioria da população brasileira não quer abrir mão.
Não será a mera retórica de quem diz "trabalhar para as pessoas", "cuidar das famílias" e que o "Brasil pode mais" (slogans genéricos, vazios, falsos e abstratos - afinal quem são as pessoas, quem são as famílias e quem é o Brasil?) que mudará a atual tendência do eleitorado. Ainda bem.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Na rua Augusta, lentamente
Conheci a rua Augusta quando era moleque, põe tempo nisso. Foi pelo rádio, que ainda imperava lá em Guapiaçu, interior de São Paulo. O hit que tocava sem parar era um rock de Ronnie Cord. Falava de carros envenenados, com pneus carecas descendo a Augusta a 120 por hora, de guangues jovens e de muita aventura que despertava nossos desejos. Em Guapiaçu pouquíssimos tinham carros, já havia uns motoqueiros, mas guangues desse tipo não se conhecia.
Sequer conseguia criar uma imagem mental de tão badalada rua, muito menos de São Paulo, que só visitei pela primeira vez quase dez anos depois. No entanto, era grande a curiosidade sobre esse espaço em cujas imediações viria atualmente fixar minha segunda residência (sempre preciso de duas casas).
Quando morei e trabalhei em São Paulo, na segunda parte dos anos 70, passei muitas vezes por ali em direção à USP para os cursos de pós-graduação. Ia de troléibus a 20 por hora. Subir a rua até a Paulista, depois descer a Pinheiros era um verdadeiro suplício. Mas o percurso dava a oportunidade de admirar as boutiques de classe que ainda existiam naquele trecho. A avenida Paulista, em fase final de remodelação, ainda não havia adquirido o status atual de 5a. Avenue. A Augusta, por seu lado, mantinha o antigo charme.
Acho que foi a partir da década de 1980 que ela começou a perder o prestígio pequeno-burguês. Exatamente quando a boca do lixo central se dilatou e a área passou a ser ocupada por casas de massagem, clubes de sexo e prostituição de rua. A classe média cedeu lugar às garotas de programa, aos trabalhadores da periferia e aos visitantes em busca de prazer barato.
Hoje, a Augusta tem outra paisagem humana. Pelo menos nos quarteirões mais próximos da Paulista, uma classe média dita descolada frequenta o local diariamente. E já desce célere para as proximidades da Caio Prado onde ainda restam umas poucas casas de programa. A convivência é pacífica, mas será inevitável o deslocamento do comércio de sexo para outra região. Não tem jeito, as putas sempre perdem.
Gosto da rua Augusta. Embora seu público seja majoritariamente jovem, há também lugar para gente, como eu, já passada do ponto. O Espaço Cultural Unibanco é a referência desse povo consumidor de bens culturais chamados de alternativos (não sei bem o que é isso, mas também sou um dos seus apreciadores). Tem sempre um filme menos comercial em cartaz ou nas bancas de dvds piratas, espetáculos experimentais de teatro e, principalmente, boas livrarias. Não só a Cultura, no cruzamento da Paulista, mas ainda a do próprio Espaço Cultural, especializada em artes.
O que atrai mais, entretanto, são os botecos, dois ou três por quadra. Para quem só come fora é um prato cheio, saboroso, rápido e de preço acessível: virado à paulista nas segundas, frango ou peixe às terças, feijoada e massa na sequência. E tem o tradicional Piollin na baixada, sempre imperdível.
O trânsito continua insuportável para quem anda de carro. 120 por hora é impossível nas duas mãos invariavelmente entupidas. O pedreste vai razoavelmente bem, em especial na descida. Subir a ladeira já é tarefa mais difícil no descanso sempre cheio de galera com copos e latinhas na mão. Sem falar do novo calçamento meia-boca que exige atenção desdobrada do andarilho.
Nada disso tira o prazer de andar por ali (aqui). Quando ficar bem velho, quero descer a rua Augusta a zero por hora.
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Observatório do mundo
domingo, 20 de junho de 2010
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Saramago enjoou de ver
rendeu-se à fraqueza da linguagem humana, submeteu-se à pontuação, concluiu o Parágrafo.
"...Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem".
"...Por que foi que cegamos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem".
José Saramago
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Ainda sobre livros e e-books
Dois livros essenciais sobre livros, lançados originalmente no ano passado, acabam de ser publicados no Brasil. O primeiro, Não contem com o fim do livro, reúne uma jornada de entrevistas concedidas a Jean-Philippe de Tonnac por Umberto Eco e Jean-Claude Carrière. O segundo, intitulado A questão dos livros: passado, presente e futuro, é assinado por Robert Darnton.
Trata-se de um trio cultor de livros, cada qual à sua maneira. Umberto Eco, o mais conhecido deles, além de romancista, filósofo e semiólogo, é um inveterado colecionador desse tipo de bem cultural. Carrière é tambem bibliófilo de carteirinha, além de escritor, dramaturgo e roteirista. Robert Darnton, que já conquistou um lugar na historiografia internacional com uma série de trabalhos a respeito da história da leitura, ocupa hoje o prestigioso cargo de diretor da Biblioteca da Universidade Harvard. Vale a pena, portanto, saber o que eles pensam sobre a situação do livro na era dita da informação.
Nas respostas dadas ao entrevistador, os dois primeiros transitam com grande desenvoltura, erudição e bom humor por temas complexos do passado e do presente: as mudanças no hábito de leitura provocadas pela velocidade das transformações técnicas; a rápida e sucessiva obsolescência das novas tecnologias da informação; a memória incontrolável da internet, desprovida de instrumentos condiáveis de filtragem; a tendência atual ao desaparecimento das especialidades ligadas ao estudo dos manuscritos; o papel do livro, dos livreiros e das bibliotecas na história - entre outros assuntos.
Mas o que os inflama mesmo é uma certa aposta na perenidade do livro tal qual o conhecemos desde a Idade Média, ou ainda, desde Gutenberg. Diante da efemeridade de inúmeras tecnologias modernas, segundo o eloquente escritor italiano:
"Das duas uma: ou o livro permanecerá o suporte da leitura, ou existirá alguma coisa similar ao que o livro nunca deixou de ser, mesmo antes da invenção da tipografia. As variações em torno do objeto livro não modificaram sua função, nem sua sintaxe, em mais de quinhentos anos. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados. Você não pode fazer uma colher melhor que uma colher".
Por sua vez, Robert Darnton também faz uma descarada apologia do livro, nas suas próprias palavras. Ainda assim, mostra-se um pouco mais ousado como autor de alguns projetos de cunho digital, já que supõe seu inevitável predomínio na era em que ingressamos ou estamos às vésperas de ingressar. É por essa razão que seus ensaios foram organizados em três partes, dedicadas, pela ordem, do futuro ao passado. Inicia o livro com algumas conjecturas, justificadas por indícios do presente, a respeito do futuro do livro, da informação e das bibliotecas no ciberespaço. Na segunda parte, trata da convivência entre livros impressos e e-books, dos planos que desenvolveu para a publicação de livros virtuais e defende com veemência o acesso livre ao conhecimento e à cultura, conforme os princípios da república iluminista das letras. A última parte versa sobre questões ligadas aos seus trabalhos de historiador da leitura.
Convém ler com atenção o capítulo O Google e o futuro do livro, em que Darnton analisa os problemas envolvidos no grande projeto, encabeçado por essa empresa, de digitalização das bibliotecas. De acordo com ele, a iniciativa nos coloca diante do imponderável: o monopólio quase absoluto do patrimônio universal da cultura letrada pela iniciativa privada ou o triunfo do sonho enciclopédico iluminista. Nas entrelinhas, talvez se possa ler um Darnton um tanto desalentado.
Quanto ao e-book, experimentado na própria pele pelo historiador durante a década de 1990, quando ele liderou a edição de uma série de teses acadêmicas em formato digital, nota-se que suas informações não permitem conclusões definitivas. Tal empreendimento foi apenas parcialmente bem-sucedido, mas já se interrompeu. As evidências demonstram, contudo, que as dificuldades de publicações acadêmicas ainda não foram solucionadas nos Estados Unidos. O que também ocorre no Brasil, diga-se de passagem.
As ponderações de Robert Darnton, tanto quanto de Eco e Carrière, deveriam ser lidas com cuidado, especialmente nos meios novidadeiros nacionais. Das duas obras ainda resta um cheirinho sagrado de livro.
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sábado, 12 de junho de 2010
Nosso crescimento chinês
Tá. As candidaturas à presidência da República já estão postas. O nome de Dilma emplacou e tem grandes chances de vencer a tucanalha. Lula continua mais popular do que nunca. Seu governo segue obtendo êxitos nos planos sociais, na economia e na política externa. Começamos a crescer como os chineses.
Basta? É claro que não. Nem por isso vou aderir ao slogan "O Brasil pode mais". É evidente que pode. Mas o quê? Além disso, o Brasil não é uma abstração conceitual. Essa suposta entidade acima de tudo e de todos envolve classes e segmentos distintos, grupos de interesses diversos, projetos discordantes, visões de futuro contrastantes.
Portanto, é preciso politizar o processo eleitoral. Fazer com que os candidatos não só mostrem suas caras, mas também, esclareçam seus projetos. É ai que a porca torce o rabo. Estamos ainda longe de um debate politizado.
Dizem que a disputa só vai pegar fogo depois da Copa. Espero que sim. Espero, sobretudo, que não se limite ao jogo de forças da mídia golpista encabeçada pela Veja e pela Folha de São Paulo.
Há outras fontes que deveriam merecer a atenção dos chamados formadores de opinião. A Carta Capital, por exemplo, que nesta semana publicou uma edição especial com um dossiê intitulado "Do que o Brasil precisa?". Leitura indispensável para o início de uma reflexão.
Abre o dossiê o próprio diretor da revista, Mino Carta, com seu editorial sobre o egoísmo e a cegueira das elites e da classe média brasileiras, incapazes de compreender o que tem ocorrido em nosso país desde o início do século XXI. Delfim Neto, aquele bruxo velho da economia, fala dos nossos desafios energéticos. João Pedro Stedile bate na tecla da extrema concentração das riquezas em nosso território. A Igreja Católica vem com Dom Dimas Lara Barbosa, defensor das formas de participação popular na política. Moniz Bandeira, em elogio à atual política externa brasileira, alerta que "os países de largas fronteiras serão os principais atores da política internacional". André Siqueira, executivo da Ford, trata do necessário equilíbrio entre PIB, câmbio e juros. Tem até o liberal-hipócrita de carteirinha, Marco Maciel, a escrever sobre a inevitável revisão da Constituição cidadã.
Uns poucos artigos versam sobre futebol, cultura e educação. Sócrates, nosso brilhante filósofo, toma o exemplo do comportamento dos craques do futebol para refletir sobre a juventude brasileira: "Espelhos do abandono em que se encontra a juventude, nossos craques entram em seus carrões e fogem da realidade". Lucidez chocante em época do mundial de futebol. As matérias a respeito da cultura e da educação são, porém, óbvias e pobres.
É uma pena, pois, os desafios nessa área talvez sejam os maiores. Não só no que diz respeito à ampliação dos números do acesso à educação formal, à alfabetização, à modernização das escolas, mas ao tipo de educação que pretendemos efetivar. Creio que, nesse tocante, ainda não nos libertamos das recomendações e das receitas capitalistas neoliberais do Banco Mundial.
A universidade, regida pela CAPES, assumiu uma forma gerencial que poderá levar, quando muito, ao sucesso numérico: maior número de produtos, não importa lá o que eles sejam. Basta que sejam produtos e possam ser rotulados de inovações tecnológicas. Isso é muito pouco. Só uma educação realmente estimulante e criativa será capaz de promover o espírito crítico, condição fundamental para o desenvolvimento científico e para uma verdadeira cidadania.
É por isso que tenho de concordar com Chico de Oliveira, do qual discordo em termos de opções eleitorais, quanto à postura dos intelectuais brasileiros, segmento vinculado às universidades e que faz parte da rede neoliberal da CAPES. Em entrevista publicada no último número da revista Cult (outra indicação aos leitores), adverte ele que "o nível da crítica ao capitalismo no Brasil pela esquerda formal quase inexiste".
Particularmente, estou muito feliz com o nosso crescimento chinês, retomado dos velhos sonhos desenvolvimentistas e de política externa independente dos idos finais de 1950. Como qualquer brasileiro, tenho direito a esse gostinho de capitalismo, mesmo que depois de tanto tempo. Resta saber se isto basta. A mim, tenho a certeza de que não.
Basta? É claro que não. Nem por isso vou aderir ao slogan "O Brasil pode mais". É evidente que pode. Mas o quê? Além disso, o Brasil não é uma abstração conceitual. Essa suposta entidade acima de tudo e de todos envolve classes e segmentos distintos, grupos de interesses diversos, projetos discordantes, visões de futuro contrastantes.
Portanto, é preciso politizar o processo eleitoral. Fazer com que os candidatos não só mostrem suas caras, mas também, esclareçam seus projetos. É ai que a porca torce o rabo. Estamos ainda longe de um debate politizado.
Dizem que a disputa só vai pegar fogo depois da Copa. Espero que sim. Espero, sobretudo, que não se limite ao jogo de forças da mídia golpista encabeçada pela Veja e pela Folha de São Paulo.
Há outras fontes que deveriam merecer a atenção dos chamados formadores de opinião. A Carta Capital, por exemplo, que nesta semana publicou uma edição especial com um dossiê intitulado "Do que o Brasil precisa?". Leitura indispensável para o início de uma reflexão.
Abre o dossiê o próprio diretor da revista, Mino Carta, com seu editorial sobre o egoísmo e a cegueira das elites e da classe média brasileiras, incapazes de compreender o que tem ocorrido em nosso país desde o início do século XXI. Delfim Neto, aquele bruxo velho da economia, fala dos nossos desafios energéticos. João Pedro Stedile bate na tecla da extrema concentração das riquezas em nosso território. A Igreja Católica vem com Dom Dimas Lara Barbosa, defensor das formas de participação popular na política. Moniz Bandeira, em elogio à atual política externa brasileira, alerta que "os países de largas fronteiras serão os principais atores da política internacional". André Siqueira, executivo da Ford, trata do necessário equilíbrio entre PIB, câmbio e juros. Tem até o liberal-hipócrita de carteirinha, Marco Maciel, a escrever sobre a inevitável revisão da Constituição cidadã.
Uns poucos artigos versam sobre futebol, cultura e educação. Sócrates, nosso brilhante filósofo, toma o exemplo do comportamento dos craques do futebol para refletir sobre a juventude brasileira: "Espelhos do abandono em que se encontra a juventude, nossos craques entram em seus carrões e fogem da realidade". Lucidez chocante em época do mundial de futebol. As matérias a respeito da cultura e da educação são, porém, óbvias e pobres.
É uma pena, pois, os desafios nessa área talvez sejam os maiores. Não só no que diz respeito à ampliação dos números do acesso à educação formal, à alfabetização, à modernização das escolas, mas ao tipo de educação que pretendemos efetivar. Creio que, nesse tocante, ainda não nos libertamos das recomendações e das receitas capitalistas neoliberais do Banco Mundial.
A universidade, regida pela CAPES, assumiu uma forma gerencial que poderá levar, quando muito, ao sucesso numérico: maior número de produtos, não importa lá o que eles sejam. Basta que sejam produtos e possam ser rotulados de inovações tecnológicas. Isso é muito pouco. Só uma educação realmente estimulante e criativa será capaz de promover o espírito crítico, condição fundamental para o desenvolvimento científico e para uma verdadeira cidadania.
É por isso que tenho de concordar com Chico de Oliveira, do qual discordo em termos de opções eleitorais, quanto à postura dos intelectuais brasileiros, segmento vinculado às universidades e que faz parte da rede neoliberal da CAPES. Em entrevista publicada no último número da revista Cult (outra indicação aos leitores), adverte ele que "o nível da crítica ao capitalismo no Brasil pela esquerda formal quase inexiste".
Particularmente, estou muito feliz com o nosso crescimento chinês, retomado dos velhos sonhos desenvolvimentistas e de política externa independente dos idos finais de 1950. Como qualquer brasileiro, tenho direito a esse gostinho de capitalismo, mesmo que depois de tanto tempo. Resta saber se isto basta. A mim, tenho a certeza de que não.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Um pouco do poeta maldito
Canção da Torre Mais Alta (A. Rimbaud)
Mocidade presa
A tudo oprimida
Por delicadeza
Eu perdi a vida.
Ah! Que o tempo venha
Em que a alma se empenha.
Eu me disse: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
De algum bem que seja.
A ti só aspiro
Augusto retiro.
Tamanha paciência
Não me hei de esquecer.
Temor e dolência,
Aos céus fiz erguer.
E esta sede estranha
A ofuscar-me a entranha.
Qual o Prado imenso
Condenado a olvido,
Que cresce florido
De joio e de incenso
Ao feroz zunzum das
Moscas imundas.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
A barbárie não tem parada
É triste admitir, mas, depois de décadas de revolução comportamental e civilizatória, a barbárie volta triunfante. A despeito das décadas de paz e amor, dos ideais de solidariedade universal, dos sonhos aquarianos, do feminismo, da valorização da diversidade e do politicamente correto, o recalcado retorna cada vez mais forte. Refratário às novas leis e aos novos esclarecimentos, o reprimido parece cumprir com exatidão o esquema das pulsões inconscientes, tão bem descrito por Freud: diante de uma barreira, e uma vez impedido de descarregar sua energia primitiva, dá meia-volta, reorienta sua trajetória, robustece e mira outro alvo. Como as bactérias ancestrais combatidas pelos antibióticos, emerge mais resistente contra toda tentativa de purificação do corpo.
Exagero? Então o que significa o recrudescimento, em tempos da moderna sociedade da informação, de atitudes e comportamentos característicos de uma época arcaica, pré-1960, como o sexismo, o machismo, o sadismo, o adestramento marcial, o culto ao corpo muscular, o bullying e fenômenos correlatos? De tudo aquilo que imaginávamos circunscrito às populações pobres, marginalizadas, abandonadas pelas luzes da cultura, obrigadas a sobreviver e a se defender no lodaçal da violência cotidiana?
Pois bem: todas estas manifestações estão ai disseminadas nos vários segmentos sociais, principalmente entre os jovens: a violência física e psicológica, que não se restringe às escolas públicas, mas ao contrário, invade as melhores escolas privadas da classe média; o sadismo bullyng, que mira um amplo espectro de supostos desafortunados - professores proletários, obesos e magros, feias, viados e lésbicas, cdfs...
Já procuraram saber quais sãos os modelos midiáticos dessa galera? São os programas humorísticos, especialmente o Pânico na tv, que sob o invólucro moderno, expõe formas de agressividade, preconceito, violência e sexismo extremos: a tortura do gordo, as bichas rebolantes, as paniketes oferecidas, a desdentada Gorete, o Zina abobalhado, as pelancudas das praias, geralmente pretas e pobres... Comparados a essa forma de humor, a antiga Escolinha do Professor Raimundo, o morimbundo Casseta e Planeta e a sobrevivente A praça é nossa até poderiam ser transmitidos nas misssas dominicais.
Se o Pânico, com sua grosseria infantil, se tornou a escola da molecada, o CQC é uma igreja para os pretensos antenados, adolescentes dos vinte aos trinta anos. Não é à toa que seus apresentadores, professantes de um fascismo implícito e difuso, viraram objeto de uma verdadeira idolatria.
Latente ou manifesta, a barbárie ainda cobre outras faixas etárias e outros espaços, como a família e o trabalho, sempre alimentada pela onipresente tv. Exemplo típico dessa fonte é o programa Pop, que alterna a defesa veemente do respeito à diversidade com a oferta mais baixa de consumo sexual, especialmente da mulher. Basta ver o quadro Sua patroa pode ser um avião, cujos termos procedem do vocabulário dos anos 50.
Com isto não quero dizer que a televisão seja a criadora do sexismo, do machismo, da violência ou do sadismo. Tais componentes circulam pela vida social, espelham a mídia e ao mesmo tempo são por ela espelhados. A barbárie é um fenômeno de ordem social, econômica e cultural. Leis e informações podem até mitigá-la momentaneamente, mas permanecerá ou se insinuará em formatos diferentes enquanto persistir a atual estrutura de sociedade. O foda é que ninguém sabe como sair disso.
No taxi para a Barra Funda, antes do feriadão, ouvi do motorista que a gayzada ia dar lucro no domingo - "a parada é boa porque viado gosta de gastar dinheiro". Ao retornar, no domingo à noite, quando a parada já se dissolvia, outro taxista, ao presenciar um casal gay se beijando, comentou: "esses filhos da puta não tem vergonha na cara, bando de aidéticos". E em plena segundona, durante ao almoço num restaurante de bancários, o assunto continuava na mesa ao lado da minha: A moça: - "Cês viram aquelas travestis no carro alegórico? Como é que pode? Morri de rir". A colega: - "Dizem que já nascem assim, tem problemas psicológicos, a gente tem que respeitar, coitados!". O amigo: "As sapatonas não tem graça, mas os viados são muito engraçados".
Para a ruidosa maioria silenciosa a Parada Gay é só um circo. O que dizer do circo de horrores em que essa mesma massa atua?
Pois bem: todas estas manifestações estão ai disseminadas nos vários segmentos sociais, principalmente entre os jovens: a violência física e psicológica, que não se restringe às escolas públicas, mas ao contrário, invade as melhores escolas privadas da classe média; o sadismo bullyng, que mira um amplo espectro de supostos desafortunados - professores proletários, obesos e magros, feias, viados e lésbicas, cdfs...
Já procuraram saber quais sãos os modelos midiáticos dessa galera? São os programas humorísticos, especialmente o Pânico na tv, que sob o invólucro moderno, expõe formas de agressividade, preconceito, violência e sexismo extremos: a tortura do gordo, as bichas rebolantes, as paniketes oferecidas, a desdentada Gorete, o Zina abobalhado, as pelancudas das praias, geralmente pretas e pobres... Comparados a essa forma de humor, a antiga Escolinha do Professor Raimundo, o morimbundo Casseta e Planeta e a sobrevivente A praça é nossa até poderiam ser transmitidos nas misssas dominicais.
Se o Pânico, com sua grosseria infantil, se tornou a escola da molecada, o CQC é uma igreja para os pretensos antenados, adolescentes dos vinte aos trinta anos. Não é à toa que seus apresentadores, professantes de um fascismo implícito e difuso, viraram objeto de uma verdadeira idolatria.
Latente ou manifesta, a barbárie ainda cobre outras faixas etárias e outros espaços, como a família e o trabalho, sempre alimentada pela onipresente tv. Exemplo típico dessa fonte é o programa Pop, que alterna a defesa veemente do respeito à diversidade com a oferta mais baixa de consumo sexual, especialmente da mulher. Basta ver o quadro Sua patroa pode ser um avião, cujos termos procedem do vocabulário dos anos 50.
Com isto não quero dizer que a televisão seja a criadora do sexismo, do machismo, da violência ou do sadismo. Tais componentes circulam pela vida social, espelham a mídia e ao mesmo tempo são por ela espelhados. A barbárie é um fenômeno de ordem social, econômica e cultural. Leis e informações podem até mitigá-la momentaneamente, mas permanecerá ou se insinuará em formatos diferentes enquanto persistir a atual estrutura de sociedade. O foda é que ninguém sabe como sair disso.
No taxi para a Barra Funda, antes do feriadão, ouvi do motorista que a gayzada ia dar lucro no domingo - "a parada é boa porque viado gosta de gastar dinheiro". Ao retornar, no domingo à noite, quando a parada já se dissolvia, outro taxista, ao presenciar um casal gay se beijando, comentou: "esses filhos da puta não tem vergonha na cara, bando de aidéticos". E em plena segundona, durante ao almoço num restaurante de bancários, o assunto continuava na mesa ao lado da minha: A moça: - "Cês viram aquelas travestis no carro alegórico? Como é que pode? Morri de rir". A colega: - "Dizem que já nascem assim, tem problemas psicológicos, a gente tem que respeitar, coitados!". O amigo: "As sapatonas não tem graça, mas os viados são muito engraçados".
Para a ruidosa maioria silenciosa a Parada Gay é só um circo. O que dizer do circo de horrores em que essa mesma massa atua?
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sábado, 5 de junho de 2010
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Oral sex
Sou um cara invocado com algumas palavras. Volta e meia me irritam a falsa de senso crítico e o verdadeiro ridículo da repetição nauseante de uma série de termos-clichês, banalizados ao extremo. Um deles é representação, moda desde os anos 80 na academia. Seu aparecimento coincidiu com o declínio do vocábulo ideologia, corriqueiro no velho marxismo. Pois bem: buscaram lá na teoria estética a tal da representação, que já não significa absolutamente mais nada. Tudo virou representação e ainda insistem em empregá-la, principalmente as novas filas de epígonos. Mas há um monte de outras palavras acadêmicas desse tipo que pretendo de vez em quando mostrar aqui. Dará um imenso dicionário de bobagens intelectuais.
Há também aqueles termos e modos estúpidos de falar que foram tão rapidamente incorporados na linguagem cotidiana. Quase todos vieram dos business statianos, como os gerundimos que ainda se propagam como verdadeiras pragas: vamos estar fazendo, vou estar transferindo a ligação e similares. Tem ainda o com certeza, um tipo de resposta-padrão sempre dado em entrevistas de televisão, que nos traz a incerteza de viver num mundo inteligente. E muitos outros de idêntico calão por ai afora.
Durante sua viagem ao Brasil para assumir um posto na USP, na década de 1930, Lévi-Strauss disse que a terra se tornava uma imensa monocultura. Segundo o antropólogo, todos os recantos de diversidade ou policultura iam desaparecendo com a diminuição das distâncias. Não sei o que ele pensou a respeito do mesmo assunto nos seus últimos anos de vida, quando a globalização e o incremento monopolístico e acelerado das informações levaram ao paroxismo aquela tendência. No Brasil, então, a monocultura yankee vem de longe e abrange todas as classes.
Mas hoje quero falar do vocabulário sexy, uma dessas invariantes coloniais. Aliás, não sei porque o termo sexo tem a força que tem. Nem vou recorrer a Jurandir Costa Freire para alertar que até o século XVIII o referido não era tratado desse modo separado dos afetos, sentimentos, espíritos e outras partes da carne. Tampouco a Foucault para lembrar que é exatamente desde então que a sociedade ocidental nos constrange a falar de sexo. O sexo tornou-se falado, em vez de reprimido como um tabu. Passou a ser controlado pela fala e não pelo falo. E muito menos recorrer ao maluco do Baudrillard para concluir que o sexo adquiriu essa dimensão falada e específica exatamente porque já desapareceu, se desprendeu do real, transformou-se em virtual.
Não chego a tanto, embora tenha de admitir que a expressão sexo, biologicamente superlativa, representa (olha aqui o lapso) entre nós uma função, uma mecânica, um processo. Os norte-americanos adoram incluir tudo na semântica da produção capitalista com suas eficiências e produtividades. To have sex é bem a expressão desse puro comércio. Melhor é o vocabulário puro e inocentemente debochado dos inferninhos da prostituição: trepar é um dos verbos correntes, aliás, magnífico, preciso, erótico, ecológico. E que saudades do make love, not war, tão romântico!
Experimentem assistir ao programa Talk sex, da Sue Johansen, e verão que estou certo. A mulher até que é safadinha como uma panela velha, só que ao jeito dos irmãos puritanos do norte. Ensina a art of sucking dick e coisas que tais, mas de um jeito tão técnico e natural que tira qualquer tesão. O tesão gosta de um pouco de secreto, de escuro, de proibido. Iluminá-lo e clarificá-lo é brochante. Por isso é que, no âmbito dessa mesma pedagogia do sexo, o antigo programa Ponto P era muito mais interessante, sacana e nacionalista. Tinha duplo sentido.
Sei que a lingua yankee é muito prática e eficiente, mas francamente, há vocábulo mais feio que relationship? Não sei nem quero saber sua origem etimológica ou histórica, nem por isso gosto desse negócio de relação e transação. Por isso me incomoda ouvir um relacionamento por minuto nas conversas de metrô, pelo celular, nas lojas, nas igrejas, no programa da Lucianta, de bocas populares ou célebres: terminei recentemente um relacionamento, comecei um novo relacionamento. Ou seja (como diria Lula), ninguém mais é gente, e sim agente de relações. Bons tempos eram aqueles em que as pessoas tinham casos, paralelos ou não ao casamento institucional. Fulana tinha um caso com sicrano. Ou eram amigadas (que linda expressão!).
O imperialismo se expande também pelo território homoerótico, e não poderia ser diferente. Tem uns vinte anos que os viados brasileiros passaram a ser gays tipo norte-americanos. A expressão gay (homossexual não pode ser contido ou mesmo triste?)nos Estados Unidos, só ganhou conotação sexual em meados do século XX e se mundializou com o movimento do politicamente correto. Tinha o propósito de combater os preconceitos implícitos em termos como viado, bambi (nenhuma alusão a um clube de futebol) bicha e outros. Alguns dizem que viado vinha de transviado (termo classificatório inaceitável), outros afirmam que era simplesmente uma corruptela de veado, o bicho. Acredito mais nesta segunda alternativa.
O fato é que tenho dúvidas a respeito do poder purificador e racionalizador das palavras. No caso de gay, creio que é mais um termo para usar na televisão e na academia do que qualquer outra coisa. Socialmente aceito e legitimado, aparenta cientificidade, racionalidade, modernidade e neutralidade. Mas não é o que os gays usam cotidianamente para se referir aos pares e a si próprios: em ambiente próprio eles se dizem bichas e viados. E não vêem nenhum mal nisso.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Faz frio na Praça da Sé
A Praça da Sé esfria, escorre
Gela, garoa, neblina
Chove, nevasca, nevoa
Implacável, escurece
Indiferente, obscurece
Impiedosa, ausenta
A sangue frio, exila
E cala.
Gela, garoa, neblina
Chove, nevasca, nevoa
Implacável, escurece
Indiferente, obscurece
Impiedosa, ausenta
A sangue frio, exila
E cala.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010
Carapuça com endereço certo
Vou acender velas para São Jorge
A ele eu quero agradecer
E vou plantar comigo-ninguém-pode
Para que o mal não possa então vencer
Olho grande em mim não pega
Não pega não
Não pega em quem tem fé
No coração
Ogum com sua espada
Sua capa encarnada
Me dá sempre proteção
Quem vai pela boa estrada
No fim dessa caminhada
Encontra em Deus perdão
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Uma história da juventude
Dando sequência ao post anterior, reitero que o livro de Jon Savage demonstra, com inteligência e sobriedade, como a juventude, um aglomerado etário-populacional heterogêneo - e até então destituído de identidade sociocultural particular, é revestido de suma importância no século XX. Embora seu estudo se limite aos casos da Inglaterra, dos Estados Unidos e da França entre 1880 a 1945, não resta dúvida de que o fenômeno também se estendeu por várias outros países do globo. Não necessariamente na mesma escala temporal, o que torna sua obra um estímulo para pesquisas sobre regiões diversas.
Tal circunstância resultou, segundo ele, da intensa urbanização (acrescida da imigração, no caso dos Estados Unidos) ocorrida à época, que deu ampla visibilidade ao cada vez maior contingente de jovens, antes disperso nas áreas rurais e subordinado ao universo das famílias. Nas ruas das metrópoles e relativamente libertos do controle dos pais, os jovens passarão a ser conhecidos, investigados, retratados e catalogados por profissionais ou diletantes de diferentes instituições: repórteres, policiais, políticos, assistentes sociais, médicos, psiquiatras, psicólogos, educadores, sociólogos, criminalistas, artistas, romancistas, militares, religiosos. E finalmente por empresários e publicitários, que logo descobrirão um novo potencial de consumo até então oculto naquela massa informe.
Não é à toa que tenham surgido examente nesse contexto alguns termos hoje extremamente conhecidos e usados em nosso cotidiano: adolescência, teens e similares. E não é também fortuito que tanto se tenha investido nesses segmentos etários e sociais, seja para assimilá-los à ordem, seja para moldá-los como força histórica transformadora.
Savage acompanha passo a passo esses distintos processos com base numa documentação que permite compreender tanto o ponto de vista dos próprios adolescentes quanto o daqueles profissionais citados. É ainda notável como o autor contextualiza as diversas faces da juventude em diferentes momentos: os delinquentes dos bairros periféricos e operários no final do século XIX, os poetas decadentistas da mesma época, os estudantes preparados para a fábrica ou para a guerra no início do seculo seguinte, os fascistas e nazistas, os adolescentes na crise de 29, os músicos e cantores populares, os rebeldes da resistência... até os triunfantes consumidores de modas.
O livro termina em 1945, mas foi justamente depois desta data que esse aglomerado populacional e etário seria considerado sinônimo de um poder jovem. A década de 1960, e particularmente o ano de 1968, expressaram muito bem tal sonho, afinal, corroído pela força do onipresente mercado capitalista. Foi assim na Europa, na América do Norte e também no Brasil.
Pena que falte um estudo de semelhante porte no que diz respeito ao nosso país. Mas, do jeito como andam as pesquisas acadêmicas, dia a dia mais nanicas e irrelevantes, talvez demore um longo tempo para que isso possa ser feito.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Apenas um bom livro de História
Pode parecer pouca coisa, mas ler um bom livro de História é reconfortante para quem, por força do ofício, participa com frequência de bancas de avaliação de textos acadêmicos (dissertações e teses) e emite pareceres sobre artigos científicos e projetos de pesquisa. E que, como eu, anda cada vez mais desencantado com o estado atual da arte historiográfica. Falo da brasileira, com a qual tenho mais contato, embora o mesmo sentimento também possa valer para a estrangeira que conheço.
Aliás, chamá-la de arte soa mesmo como um disparate. Não me aventuro em empregar outro termo (os que me vêm à mente são impublicáveis) para designar essa produção em série (pirataria, em muitos casos) de bagatelas, acelerada sobretudo desde os anos 90, quando o setor se profissionalizou sob a tutela dos orgãos oficiais de fomento à pesquisa.
Por isso tudo, é reconfortante ler um bom livro de História. Encontrei-o na livraria da Estação Barra Funda minutos antes de embarcar para mais uma longa viagem. Desconhecia o autor, não lera nenhuma resenha a respeito da obra. Foi o título - seguido de uma rápida folheada e da consulta ao sumário - que me chamou a atenção: A criaçao da juventude: como o conceito de teenage revolucionou o século XX, do jornalista inglês Jon Savage.
Não se trata de um trabalho acadêmico ou teórico com pretensão a revolucionar a historiografia, presunção que tantas vezes se encontra em teses. Nada disso. É simplesmente um livro escrito com elegância sóbria, sem sofisticação conceitual (o subtítulo pode ser enganoso) e documentado na medida certa. Tudo para contar a história da aparição dos vários segmentos de jovens urbanos - operários, delinquentes, rebeldes ou consumistas - na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos das últimas décadas do século XIX a 1945.
Nem cheguei à metade do volume, mas continuo bem-impressionado. Quando avançar na leitura, contarei os detalhes. Prometo.
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Exorcismos historiográficos e acadêmicos
domingo, 23 de maio de 2010
O descanso do blogueiro
Tirei uns dias de férias desta página, mas o blog continua na semana que vem. Os eventos e assuntos passam rápido demais, a maioria deles dispensa meus comentários. Preferi descansar.
Teve o acordo com o Irã, mediado pelo Brasil e pela Turquia. Até que pensei em dar um palpite, mas me calei porque não entendo quase nada de geopolítica. Nem por isso deixei de me indignar com a análise obtusa da nossa mídia local, especialmente, da Globo. Partidária da subserviência ao Império decadente, advertiu Lula que a tradição da diplomacia brasileira é o alinhamento com o Ocidente. Que Ocidente é esse? É demais, preferi descansar.
Teve a nova pesquisa eleitoral que demonstrou o empate técnico entre Dilma e Serra, contrariando a farsa antes intentada pelo Datafolha. Hoje cedo quase cedi à tentação de comprar um exemplar do mal-intencionado jornal para ver sua reação nas novas folhas diagramadas. Desisti, não paga a pena. Preferi descansar.
Teve a criação da célula semiartificial, um pequeno passo na vida de um cientista, um grande passo na vida da humanidade. Nada tenho a acrescentar a esse belo invento, ainda mais porque ultimamente estou muito contaminado pelas ingênuas e pessimistas idéias de Hannah Arendt sobre a condição humana. Preferi descansar.
Teve a Marcha da Maconha que, aliás, continua no momento em que escrevo estas linhas. Liderada, entre outros, por Soninha Francine, reúne umas trezentas pessoas no Parque do Ibirapuera, segundo cálculos oficiais. Se estivesse em São Paulo neste domingo, talvez fosse à passeata. Ainda bem que não estou para não ceder ao impulso. Não que eu seja contra o movimento, mas seguir essa fulana, nem morto! Preferi descansar.
Teve a criação da célula semiartificial, um pequeno passo na vida de um cientista, um grande passo na vida da humanidade. Nada tenho a acrescentar a esse belo invento, ainda mais porque ultimamente estou muito contaminado pelas ingênuas e pessimistas idéias de Hannah Arendt sobre a condição humana. Preferi descansar.
Teve a Marcha da Maconha que, aliás, continua no momento em que escrevo estas linhas. Liderada, entre outros, por Soninha Francine, reúne umas trezentas pessoas no Parque do Ibirapuera, segundo cálculos oficiais. Se estivesse em São Paulo neste domingo, talvez fosse à passeata. Ainda bem que não estou para não ceder ao impulso. Não que eu seja contra o movimento, mas seguir essa fulana, nem morto! Preferi descansar.
Como esses, outros eventos e assuntos passam freneticamente por todas as telinhas do globo miniaturizado. Descobri que não preciso opinar sobre tudo. Enquanto isso, entro em contato com o silêncio do mundo.
E só volto depois.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
O negócio é a escultura de si
Em tempos de crescimento econômico, a superoferta de idéias encadernadas é um perigo para os desassossegados. Ainda mais quando se vive perto das seduções livreiras. A não ser que o cara seja um tipo fernando pessoa, capaz de criar escaninhos específicos para cada uma das suas inquietações. Como não tenho esse talento, fico constantemente exposto ao risco da desorganização mental.
Na época em que não havia tanta variedade de produtos espirituais, eu consumia uma safra de cada vez, explorando ao máximo suas vantagens. Foi o caso, por exemplo, da literatura russa, das biografias de rebeldes e das teorias revolucionárias. Estes foram substituídos, anos depois, pelas obras, já então meio fora de moda, daquele conhecido casal existencialista francês. Enjoado (ou melhor, nauseado) deles, parti para outros gurus- desmontadores da tradição, sem abandonar, contudo, a pátria de Sarkozy. Foucault e congêneres, of course.
Ai vieram os anos do profusão megastórica do pensamento - estes em que vivemos. Confesso que tenho lido um pouco do tudo disponível: norte-americanos, paquistaneses, alemães, espanhóis, brasileiros... modernos e pós-modernos... hards ou ligths... de Herman Hesse a Dalai Lama. Outro dia me receitaram Omar Kayam, cujos poemas encontrei na vitrine virtual e me entreteram por alguns minutos. Quinze dias atrás comprei um Corão numa loja de conveniência, que me pareceu um saco - peço aos talibans que não me crucifiquem por este sacrilégio!
Não gostaria, porém, que me tomassem como um leitor fútil. Na medida do possível, procuro temperar as novidades com teorias mais sólidas, se é que elas já não tenham desmanchado no ar, como tem sido alertado nos últimos duzentos anos. Dentre outras, não abro mão da psicanálise, nem de uma pitada de marxismo, sempre necessários para não flutuar como um fantasma pelo cosmo.
E foi nessa perambulação contemplativa que encontrei um novo filósofo: Michel Onfray. O título do seu livro, exposto no estande principal da livraria, logo me chamou a atenção: A potência de existir. Embora fácil demais (coisa que não faz bem para um acadêmico), a leitura me agradou. Onfray inicia sua reflexão com um relato autobiográfico sobre os anos em que ficou internado numa escola religiosa católica. Foi essa experiência traumática que o levou ao terreno filosófico, isto é, à criação de uma filosofia alternativa, buscada na tradição dos epicuristas e hedonistas. Página por página, de modo simples e convincente, o novo filósofo revê toda a história do pensamento ocidental, do platonismo ao cristianismo e seus herdeiros atuais. Vai demolindo tudo, com exceção de uns poucos soterrados pela historiografia dominante.
Olha que o cara não fica só na reflexão! Propõe coisas perfeitamente viáveis, nas quais embarquei de pronto: uma moral ateológica pós-cristã (baseada na moral da honra e não da falta, na ética aristocrática e não falsamente universal, na regra imanente do jogo e não num processo transcendente, na vitalidade e não nas paixões mortíferas, no contrato com o real e não submisso ao céu), uma ética estética, uma escultura de si, um adestramento neuronal (super em dia com as novas descobertas da ciência), uma dialética da polidez, uma libido libertária etc. De todas as propostas, gostei mais da escultura de si e da libido libertária. Eu mesmo ando me esculpindo internamente faz tempo, e garanto que isso dá certo (por favor, não confundam com as cirurgias plásticas de Demi Moore). No tocante à libido libertária, a saída é o eros leve e a máquina solteira (quer dizer, sem laços permanentes), procedimentos que também já adotei.
Como se vê, sempre tem algo de novo entre o céu e a terra para além da vã filosofia! Onfray até fundou uma universidade livre (será paga?) para difundir seus ensinamentos sem o constrangimento oficial. Num momento de delírio, me deu uma vontade enorme de aposentar e fazer o mesmo.
Até que, ao visitar o Google em busca de referências adicionais sobre o autor, descobri que ele ele é o tal que provocou enorme polêmica recentemente na França, ao atacar Freud com violência, chamando-o de farsante (comeu a cunhada, desejou a mãe!) e de criador de uma fábula. Fato que despertou a ira, justamente, de psicanalistas merecedores do maior respeito intelectual, cujas obras sempre leio. Foi ai que o encanto se desfez como que por encanto. Ora, concluí: Onfray é só mais um desses ditos pensadores, na verdade, gente louca por fama e por sofás como os do Jô (vide vídeo abaixo).
Joguei o livro de lado. Mas que continuarei a seguir algumas daquelas receitas, não tenham dúvida!
Ai vieram os anos do profusão megastórica do pensamento - estes em que vivemos. Confesso que tenho lido um pouco do tudo disponível: norte-americanos, paquistaneses, alemães, espanhóis, brasileiros... modernos e pós-modernos... hards ou ligths... de Herman Hesse a Dalai Lama. Outro dia me receitaram Omar Kayam, cujos poemas encontrei na vitrine virtual e me entreteram por alguns minutos. Quinze dias atrás comprei um Corão numa loja de conveniência, que me pareceu um saco - peço aos talibans que não me crucifiquem por este sacrilégio!
Não gostaria, porém, que me tomassem como um leitor fútil. Na medida do possível, procuro temperar as novidades com teorias mais sólidas, se é que elas já não tenham desmanchado no ar, como tem sido alertado nos últimos duzentos anos. Dentre outras, não abro mão da psicanálise, nem de uma pitada de marxismo, sempre necessários para não flutuar como um fantasma pelo cosmo.
E foi nessa perambulação contemplativa que encontrei um novo filósofo: Michel Onfray. O título do seu livro, exposto no estande principal da livraria, logo me chamou a atenção: A potência de existir. Embora fácil demais (coisa que não faz bem para um acadêmico), a leitura me agradou. Onfray inicia sua reflexão com um relato autobiográfico sobre os anos em que ficou internado numa escola religiosa católica. Foi essa experiência traumática que o levou ao terreno filosófico, isto é, à criação de uma filosofia alternativa, buscada na tradição dos epicuristas e hedonistas. Página por página, de modo simples e convincente, o novo filósofo revê toda a história do pensamento ocidental, do platonismo ao cristianismo e seus herdeiros atuais. Vai demolindo tudo, com exceção de uns poucos soterrados pela historiografia dominante.
Olha que o cara não fica só na reflexão! Propõe coisas perfeitamente viáveis, nas quais embarquei de pronto: uma moral ateológica pós-cristã (baseada na moral da honra e não da falta, na ética aristocrática e não falsamente universal, na regra imanente do jogo e não num processo transcendente, na vitalidade e não nas paixões mortíferas, no contrato com o real e não submisso ao céu), uma ética estética, uma escultura de si, um adestramento neuronal (super em dia com as novas descobertas da ciência), uma dialética da polidez, uma libido libertária etc. De todas as propostas, gostei mais da escultura de si e da libido libertária. Eu mesmo ando me esculpindo internamente faz tempo, e garanto que isso dá certo (por favor, não confundam com as cirurgias plásticas de Demi Moore). No tocante à libido libertária, a saída é o eros leve e a máquina solteira (quer dizer, sem laços permanentes), procedimentos que também já adotei.
Como se vê, sempre tem algo de novo entre o céu e a terra para além da vã filosofia! Onfray até fundou uma universidade livre (será paga?) para difundir seus ensinamentos sem o constrangimento oficial. Num momento de delírio, me deu uma vontade enorme de aposentar e fazer o mesmo.
Até que, ao visitar o Google em busca de referências adicionais sobre o autor, descobri que ele ele é o tal que provocou enorme polêmica recentemente na França, ao atacar Freud com violência, chamando-o de farsante (comeu a cunhada, desejou a mãe!) e de criador de uma fábula. Fato que despertou a ira, justamente, de psicanalistas merecedores do maior respeito intelectual, cujas obras sempre leio. Foi ai que o encanto se desfez como que por encanto. Ora, concluí: Onfray é só mais um desses ditos pensadores, na verdade, gente louca por fama e por sofás como os do Jô (vide vídeo abaixo).
Joguei o livro de lado. Mas que continuarei a seguir algumas daquelas receitas, não tenham dúvida!
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domingo, 16 de maio de 2010
Whatever works
Domingo passado fui ver Tudo pode dar certo, o mais novo filme de Woody Allen (Whatever works). Fui e me arrependi. Não porque o filme seja ruim. Ao contrário, Allen retoma ai, com maestria, suas comédias irônicas sobre o american way of life (no ambiente charmoso e liberal novayorkino), depois de uma breve passagem almodovariana em Vick, Cristina, Barcelona, exuberante, mas não tanto com sua cara. Então, qual a razão do arrependimento?
É que me identifiquei com o protagonista da estória, Boris Yellnikoff (Larry David), um velho rabugento, ex-professor de Física na Universidade de Columbia, que fala o tempo todo da insignificância das aspirações humanas e do caos do universo. Alterego de Woody Allen, Boris Yellnikoff é um cara que se acha gênio realista, mas é apenas neurótico hipocondríaco, suicida compulsivo para quem nada na vida tem sentido. Um chato que caga discurso o tempo todo, dirigindo-se, aliás, direta e cruelmente ao expectador - ponto alto da narrativa.
Enfim, a vida não tem jeito para esse ex-professor solitário ... até que ele conhece por acaso a jovem e encantadora Melodie (Evan Rachel Wood), tipo que Boris mais detesta entre os humanos: meio burra, cheia de frases clichês, romântica e sonhadora. Acontece que os dois vão se envolver emocionalmente, e novas personagens também entrarão em cena (os pais da garota), mudando inesperadamente o script, embora nem tanto.
Até ai, nada demais. Parece outra estorinha escrota com um happy end (que não contarei), bem adequado para nossa sociedade expectadora de finais felizes. Quem quiser, pode entender literalmente esse desfecho. Não era absolutamente o caso de me incomodar com mais uma chatice alegre de Woody Allen.
Só que me incomodei com Bóris. Pois também sou professor universitário, e ainda que menos desiludido que ele, tenho lá meus momentos de profunda descrença no nosso modo de vida, justificado e potencializado pelas banais tecnociências, especialmente humanas, atuais. Além disso, assim como o protagonista, também ando mancando - espero que provisoriamente -, mas não como resultado de alguma tentativa malograda de suicídio (diga-se de passagem, detesto suicídio). Foi por isso que me identifiquei com o personagem e não gostei nem um pouco do que vi nesse espelho.
Ainda mais porque havia programado para o meu curso de pós-graduação, na semana que entrava, a leitura e discussão do livro A condição humana, de Hannah Arendt. Sei que esta pensadora não é pessimista como Bóris, apesar de criticar radicalmente nosso modo de vida do fazer e fazer alienado. No entanto, alguns colegas do ramo universitário já vinham zombando dessa minha idéia de propor reflexão aos alunos:
- Que nada! De muito pensar morreu um burro! Não seja como Bóris! Esses pensamentos são ingênuos, datados, passadistas, nostálgicos da filosofia grega! Deixe disso! Besteira, não têm utilidade! Em vez de refletir, faça, produza um artigo científico! Não importa o que seja ou para que seja, produza alguma coisa que funcione na engrenagem acadêmica.
Foi esse mal-estar que tomou conta de mim ao ver o filme. Me senti o próprio Bóris, neurótico e fora de lugar. Juntamente com a Hannah, uma bobinha ingênua e melodiosa, que perdeu tanto tempo para escrever uma obra sem utilidade. Afinal, tudo pode dar certo no mundo, tudo works. Basta que it works!
Enfim, a vida não tem jeito para esse ex-professor solitário ... até que ele conhece por acaso a jovem e encantadora Melodie (Evan Rachel Wood), tipo que Boris mais detesta entre os humanos: meio burra, cheia de frases clichês, romântica e sonhadora. Acontece que os dois vão se envolver emocionalmente, e novas personagens também entrarão em cena (os pais da garota), mudando inesperadamente o script, embora nem tanto.
Até ai, nada demais. Parece outra estorinha escrota com um happy end (que não contarei), bem adequado para nossa sociedade expectadora de finais felizes. Quem quiser, pode entender literalmente esse desfecho. Não era absolutamente o caso de me incomodar com mais uma chatice alegre de Woody Allen.
Só que me incomodei com Bóris. Pois também sou professor universitário, e ainda que menos desiludido que ele, tenho lá meus momentos de profunda descrença no nosso modo de vida, justificado e potencializado pelas banais tecnociências, especialmente humanas, atuais. Além disso, assim como o protagonista, também ando mancando - espero que provisoriamente -, mas não como resultado de alguma tentativa malograda de suicídio (diga-se de passagem, detesto suicídio). Foi por isso que me identifiquei com o personagem e não gostei nem um pouco do que vi nesse espelho.
Ainda mais porque havia programado para o meu curso de pós-graduação, na semana que entrava, a leitura e discussão do livro A condição humana, de Hannah Arendt. Sei que esta pensadora não é pessimista como Bóris, apesar de criticar radicalmente nosso modo de vida do fazer e fazer alienado. No entanto, alguns colegas do ramo universitário já vinham zombando dessa minha idéia de propor reflexão aos alunos:
- Que nada! De muito pensar morreu um burro! Não seja como Bóris! Esses pensamentos são ingênuos, datados, passadistas, nostálgicos da filosofia grega! Deixe disso! Besteira, não têm utilidade! Em vez de refletir, faça, produza um artigo científico! Não importa o que seja ou para que seja, produza alguma coisa que funcione na engrenagem acadêmica.
Foi esse mal-estar que tomou conta de mim ao ver o filme. Me senti o próprio Bóris, neurótico e fora de lugar. Juntamente com a Hannah, uma bobinha ingênua e melodiosa, que perdeu tanto tempo para escrever uma obra sem utilidade. Afinal, tudo pode dar certo no mundo, tudo works. Basta que it works!
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sexta-feira, 14 de maio de 2010
La vida es mas compleja de lo que parece
Nada a dizer hoje. A bocametralhadora deve calar. O fogo amigo crepita, seduz, atrai, mata. Nenhum antídoto será capaz de aplacá-lo, senão o afastamento. Essa dor se carrega em silêncio. Só posso vestir as palavras de quem já disse o essencial numa melodia. Fale por mim, Jorge Dextler:
quarta-feira, 12 de maio de 2010
O cantante Jorge Drexler e outros latino-americanos
Meu amigo Tauã me deu uma cópia do CD do compositor uruguaio Jorge Drexler, que ouvi de ponta a ponta. Juntei também outras informações obtidas na rede e já me tornei seu fã.
Uma das suas canções mais famosas é O outro lado do rio, da trilha sonora do filme Diários de motocicleta, sobre o Che. Mas ele é ainda autor de várias outras, todas belíssimas. Faz um sucesso danado na Espanha e em outros países da Europa, sem falar da notoriedade que alcançou no México, Chile, Peru, Argentina e regiões vizinhas.
No entanto, é ainda pouco conhecido no Brasil, embora já tenha gravado com Maria Rita a suave Soledad, e tenha se apresentado em Porto Alegre ou em mais uns poucos lugares. O fato é que quase não temos contato com compositores e intérpretes das nossas fronteiras de origem hispânica. A não ser com tipos como Rick Martin e outros abençoados pelo Império - ou quando muito, pelo euro (nos seus tempos de solidez). Afora isso, a ignorância e o preconceito em relação à arte deles correm soltas. Coisas de provincianos.
Houve época, porém, em que havia um verdadeiro culto da música engajada latino-americana. Eu mesmo ouvi muito Mercedes Sosa, usei poncho e me imaginava em plena guerrilha rural ou urbana. Os sons chilenos e uruguaios, especialmente, pareciam sinais da revolução e por isso eram traficados com o maior esforço. Boa época do tráfico!
Me lembro até de um casal de amigos que cruzou os Andes num fusca, em 1971, com um punhado de discos de vinil (óbvio) de artistas chilenos, proibidos por aqui. Antes de chegarem à fronteira brasileira, esconderam o material no motor do carro. Só que se esqueceram, após a fiscalização, de libertar os artistas daquele forno infernal. Foi em Brasília, mais de mil quilômetros à frente, que descobriram o estado de seus preciosos albuns, evidentemente imprestáveis.
Me lembro até de um casal de amigos que cruzou os Andes num fusca, em 1971, com um punhado de discos de vinil (óbvio) de artistas chilenos, proibidos por aqui. Antes de chegarem à fronteira brasileira, esconderam o material no motor do carro. Só que se esqueceram, após a fiscalização, de libertar os artistas daquele forno infernal. Foi em Brasília, mais de mil quilômetros à frente, que descobriram o estado de seus preciosos albuns, evidentemente imprestáveis.
Hoje, a música latino-americana remanescente daqueles anos ficou reduzida aos índios de araque que se apresentam, caracterizados de maias e incas, nas praças de São Paulo e do mundo. Bah!
Mas nem tudo é simulacro. Fora nostalgia! Jorge Drexler, por exemplo, como eu disse no começo, é uruguaio, moderno e criativo. Suas letras são excelentes. A latino-américa existe. Basta ouvir suas vozes e guitarras:
Mas nem tudo é simulacro. Fora nostalgia! Jorge Drexler, por exemplo, como eu disse no começo, é uruguaio, moderno e criativo. Suas letras são excelentes. A latino-américa existe. Basta ouvir suas vozes e guitarras:
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segunda-feira, 10 de maio de 2010
Literatura e Filosofia ebôokicas
Já faz tempo que eu queria comentar a polêmica sobre o livro eletrônico, o e-book - como o chamamos, americanófilos que somos. Mas sempre deixava o assunto de lado, sem saco para começá-lo. Quando tentava organizar as idéias e consultar algum material, logo me parecia que em torno do tema havia mais barulho do que experiências ou fatos concretos.
Li muita coisa a respeito, porém, nada que me contentasse. Os historiadores dedicados à história da leitura se limitam a mostrar que o livro, tal qual o conhecemos hoje, é um suporte material entre outros, inventado na Idade Média e aperfeiçoado nos tempos modernos. Dai concluírem que, como todos os suportes materiais da leitura, poderá um dia ser substituído por outro, o que certamente implicará novos modos de ler, escrever e pensar.
Os futurologistas desenham mil cenários novos a partir do e-book: outros tipos de textos e leitores, outras formas de biblioteca e assim por diante. As grandes corporações tecnológicas tentam criar e vender seus variados aparelhos leitores eletrônicos e disputam entre si como galos sangrentos. Falta oferecer o cheiro do papel (sobretudo o velho) e o gostinho de virar a página com o dedo molhado na língua, o que absolutamente não será difícil inventar, por mais antihigiênico que seja tal gesto. Querem, é claro, ganhar muito dinheiro com a disseminação desses novos produtos e por isso supervalorizam suas modernidades.
Nós, brasileiros, loucos por novidades desde os tempos cabralinos, costumamos babar diante de espelhinhos e, principalmente, telinhas. Só que, até agora, nada garante que o tal do e-book venha a decolar, apesar de alguns ensaios editoriais ainda não avaliados. Por outro lado da página, não há notícias de que a coisa já tenha pegado nem mesmo na Europa ou nos States. Portanto, é o caso alertar: vamos com calma, menos, caros utopistas das bugigangas do futuro!
Pessoalmente, acho que algumas formas de textos eletrônicos poderão ganhar o gosto do público leitor pela facilidade de leitura, divulgação, acesso e download. Em geral, os textos curtos, mais objetivos, diretos e utilitários, como por exemplo: escritos técnicos, dicionários, artigos acadêmicos das áreas de tecnociências (e não das humanidades, ainda que elas pouco a pouco estejam se tornando tecnociências humanas - cruzes!). Vejo também grande possibilidade de difusão eletrônica de minicontos, poemas e outras criações literárias e artísticas. Ponto a favor da tecnologia.
Mas, por favor, pelo menos na década que iniciará, não creio que vingarão filosofias, histórias ou romances eboôkicos. E se vingarem, estou fora! Aliás, já nem estarei entre vós, herdeiros do futuro. Por isso gostei muito do vídeo abaixo, que a Tania de Luca me enviou. Vejam também e digam o que acharam.
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Carta a um prefeito do interior paulista
Prezado prefeito
Talvez você não se lembre de mim, mas eu me lembro que o recebi em minha casa acompanhado de um amigo comum. Faz muito tempo, quando ainda éramos bastante jovens. Naquela época eu cursava o primeiro ano da graduação na Universidade de Brasília. Durante as férias, ao retornar à nossa terrinha, gostava de reunir os amigos para contar minhas peripécias na capital federal.
Você foi um dos que então estiveram num desses encontros em que falávamos do movimento estudantil e do combate à ditadura, líamos coisas consideradas subversivas e sonhávamos grandes bobagens. Nossa cidade, que mal somava uns cem mil habitantes, nos parecia muito provinciana para essas ousadias.
Ambos vínhamos de famílias muito antigas da região, mas a sua tinha uma marca a mais: carregava a distinção do nome do seu pai, ex-prefeito da cidade. Deste então, não tivemos outros encontros como esse e iríamos percorrer caminhos diametralmente opostos, principalmente políticos.
Nossos companheiros também seriam outros: enquanto eu andava em más companhias (ex ou pré-presos político e gente com tal figurino) você primava pelas boas. Tornou-se político profissional - vereador, deputado -, tendo passado por vários partidos da ordem, inclusive o da ordem malufista. O que explicará, creio eu, vários aspectos do seu futuro, que no presente integra a base centro-esquerda do governo federal.
Daqueles áureos anos para cá, muita coisa mudou no Brasil e no mundo. Caiu a ditadura, as cidades cresceram ainda mais, inclusive a nossa, ferida por problemas típicos das metrópoles, como as ruas entupidas de carros, o centro deteriorado, a periferia pobre e inchada. Os ideais de justiça social ficaram em segundo plano, mas, em muito países, foram bolados e até efetivados projetos de melhoria urbana pautados pela consciência ambiental e social.
Nesse interim, você seguiu na mesma toada da direita que o levou ao mesmo lugar outrora ocupado por seu pai. Azarão nas pesquisas eleitorais, acabou por vencer o candidato adversário - um jovem do PT - com uma margem mínima de votos obtidos na última hora e cabalados pelos grupos conservadores locais. Confesso que votei no outro candidato e não me arrependi.
Nossos companheiros também seriam outros: enquanto eu andava em más companhias (ex ou pré-presos político e gente com tal figurino) você primava pelas boas. Tornou-se político profissional - vereador, deputado -, tendo passado por vários partidos da ordem, inclusive o da ordem malufista. O que explicará, creio eu, vários aspectos do seu futuro, que no presente integra a base centro-esquerda do governo federal.
Daqueles áureos anos para cá, muita coisa mudou no Brasil e no mundo. Caiu a ditadura, as cidades cresceram ainda mais, inclusive a nossa, ferida por problemas típicos das metrópoles, como as ruas entupidas de carros, o centro deteriorado, a periferia pobre e inchada. Os ideais de justiça social ficaram em segundo plano, mas, em muito países, foram bolados e até efetivados projetos de melhoria urbana pautados pela consciência ambiental e social.
Nesse interim, você seguiu na mesma toada da direita que o levou ao mesmo lugar outrora ocupado por seu pai. Azarão nas pesquisas eleitorais, acabou por vencer o candidato adversário - um jovem do PT - com uma margem mínima de votos obtidos na última hora e cabalados pelos grupos conservadores locais. Confesso que votei no outro candidato e não me arrependi.
Desconfiei desde o início dos seus projetos. Agora tenho a certeza de que são péssimos. Um dos principais, já aprovado a toque de caixa pela Câmara dos Vereadores, é a construção de uma uma imensa garagem subterrânea (com a inevitável plataforma de concreto na superfície) numa das principais (e poucas) praças centrais da cidade. Tudo para abrigar três centenas dos milhares de automóveis da nossa classe média cintilante e aumentar ainda mais o volume de tráfego na área. Mega-ultra-big projeto de concreto bem ao gosto do modernismo provinciano.
Ao imaginar o que será essa obra-prima, a primeira paisagem que me vem à mente é a horrenda Praça Roosevelt paulistana, erguida naqueles tempos da nossa única reunião e que, segundo os melhores engenheiros, arquitetos e urbanistas, deverá urgentemente ser posta abaixo. O autor desse edifício do mal, que só poderia se converter em antro escuro da criminalidade, foi o seu velho amigo Maluf. Mas o seu projeto também vai ficar parecido com outras obras monstrego-monumentais realizadas na nossa cidade naqueles mesmos anos 70, como a claudicante Rodoviária e o anticultural prédio da Praça Cívica.
Ao imaginar o que será essa obra-prima, a primeira paisagem que me vem à mente é a horrenda Praça Roosevelt paulistana, erguida naqueles tempos da nossa única reunião e que, segundo os melhores engenheiros, arquitetos e urbanistas, deverá urgentemente ser posta abaixo. O autor desse edifício do mal, que só poderia se converter em antro escuro da criminalidade, foi o seu velho amigo Maluf. Mas o seu projeto também vai ficar parecido com outras obras monstrego-monumentais realizadas na nossa cidade naqueles mesmos anos 70, como a claudicante Rodoviária e o anticultural prédio da Praça Cívica.
Um dos seus outros companheiros de jornada política, no entanto, o prefeito da capital de São Paulo, velho malufista hipocritamente arrependido, declarou ontem que pretende derrubar o Minhocão, obra de idêntica monstruosidade. Não sou fã desse prefeito demo, mas tenho de admitir que ele acertou no caso do elevado.
Prezado prefeito. Como ficamos muito tempo distanciados, não sei como você se preparou durante esses anos para o mais alto posto do nosso município. Por exemplo, que livros de urbanismo leu, que cidades visitou? Tenho curiosidade especial em saber por que gosta tanto da engenharia e da arquitetura do período da ditadura. Eu, particularmente, as detesto.
Até acho legítimo que você queira inscrever seu nome na história. Pena que seja com obras desse tipo, fatalmente destinadas à implosão ou à explosão.
Sem mais,
Prezado prefeito. Como ficamos muito tempo distanciados, não sei como você se preparou durante esses anos para o mais alto posto do nosso município. Por exemplo, que livros de urbanismo leu, que cidades visitou? Tenho curiosidade especial em saber por que gosta tanto da engenharia e da arquitetura do período da ditadura. Eu, particularmente, as detesto.
Até acho legítimo que você queira inscrever seu nome na história. Pena que seja com obras desse tipo, fatalmente destinadas à implosão ou à explosão.
Sem mais,
Cordialmente
um seu conterrâneo
terça-feira, 4 de maio de 2010
Volta ao mundo e à sala de aula
Depois de quarenta dias confinado no cibermundo, a sala de aula agora me parece muito mais prazerosa. Com isto não quero dizer que uma coisa deva excluir a outra. Nem que a sala de aula tenha de ser apenas um espaço prisional, como tem sido até hoje, ou o cibermundo um lugar de pura dispersão espacial. Mas a dupla experiência me faz pensar tanto no ensino tradicional quanto nas soluções fáceis oferecidas atualmente para uma pedagogia moderna, isto é, virtual.
O ciberespaço é algo recente para mim, como suponho que seja também para a maioria das pessoas da nossa época. E por isso mesmo, encantador, fascinante, vertiginoso, imprevisível. A pedagogia não poderia passar ilesa diante dele. Uma das tentativas de inová-la é a chamada educação a distância, ultimamente adotada em todas as bandas do planeta, inclusive nas bandas podres. No entanto, creio que alguns aspectos essenciais da arte de ensinar, aprender, orientar e compartilhar saberes só podem ser obtidos na relação cara a cara entre alunos e professores - aquilo que, de alguns anos para cá, é chamado de modalidade presencial, exclusiva ou complementar.
Maravilha das maravilhas, a educação a distância promete superar tal caretice em proveito de um ensino que além de moderno (palavra multiuso desde o século XIX), é muito mais produtivo - noutras palavras, custa menos e alcança mais resultados. Nas bandas podres citadas, por exemplo, das escolas privadas brasileiras, ensino a distância significa tão somente diminuir gastos com professores. Os bons propósitos das instituições públicas não levam a tanto, mas, honestamente, não tenho muita certeza de que permanecerão bons por muito tempo, tendo em vista a avassaladora predominância da lógica empresarial em seus quadros.
Não é só isso que me incomoda, infelizmente. O que me surpreende é o uso convencional e idiota dos meios virtuais no ensino. Pelo que conheço, ensino a distância tem sido até agora - nada mais nada menos - do que transmissão televisada dos tradicionais conteúdos da escola, com o suporte das antigas apostilas rejuvenescidas por botox e cirurgias plásticas. Inventaram também que se trata de um processo interativo. Pois bem: a interatividade parece se reduzir ao velho esquema de perguntas e respostas, só que respondidas em chats ou por e-mails. É claro, não se pode esquecer do complemento presencial dessa modalidade de ensino, exercido por monitores auxiliares, como nos antiquados modelos pedagógicos face to face. Numa palavra, ensino fechado, mesmo que por meios abertos.
Pode haver experiências mais interessantes que essas, mas ainda não as conheço. Querem saber? Prefiro ficar distante dessa modernidade velhusca e - muitas vezes - velhaca. O meu ciberespaço é o livre fluir das idéias, longe ou perto.
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domingo, 2 de maio de 2010
sábado, 1 de maio de 2010
Hora heróitica
O Ministro Temporão recomendou sexo para combater a hipertensão. Eu também tenho hipertensão e só posso concordar com seu conselho. Mas gostaria de ampliar essa terapêutica para várias outras doenças que têm tomado conta dos corpos e das mentes.
Entre elas, o marasmo, a chatice, o tecnicismo da política num ano eleitoral decisivo que pode trazer de volta (esconjuro) os caretas da ordem dominante. Para deter a força da sua contaminação o único remédio é muito tesão, como disse Roberto Freire: sem tesão não há revolução.
Então, vamos lá, estrategistas do PT. Não sufoquem a libido e a utopia. Não sucumbam ao discurso técnico capitalista ou ao tédio da realpolitik. Já basta o Serra, que com sua faca afiada, corta mais e mais o pouco do sonho restante da sua geração. Dilma, que é da mesma geração, deve representar, ao contrário, o fortalecimento da esperança, o aceno da utopia, o alargamento de um projeto. Não queremos apenas uma técnica.
Não acorrentem, liberem sua pulsão de vida. E para estimulá-los deixo aqui mais um vídeo de Ney Matogrosso: "A cor do desejo".
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