sábado, 30 de outubro de 2010

Contagem regressiva final: 3...2....1.....13

Bye bye Serra! O Brasil vai seguir mudando.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Vídeo revela fase anal do Coiso


Julho de 1942: O coiso começa a sentir o prazer de reter as fezes. Mamãe fica preocupada. Por que seu bebê não quer lhe entregar seu presentinho bostal? Quer punir mamãe?

Natal de 1946: Coiso ganha uma bicicleta. Ao lado do papai, na banca do Mercado Municipal, expõe seu presente à freguezia. Um moleque pretinho tenta por a mão na bike. Coiso se enfurece e grita: - É só minha! 

Outubro de 1957: Os colegas de classe não toleram o Coiso. Ele não passa cola, esconde o lanche de calabresa, lê no canto a biografia de Napoleão, deda à professora o amigo que jogou uma bombinha no banheiro.

Janeiro de 1960: O coiso tem inveja dos líderes estudantis. Quer ser um deles. Ninguém lhe dá bola. Se junta a um grupinho de invejosos para planejar tomar o lugar deles.

1961: Depois de uma campanha cheia de intrigas contra as chapas rivais, o Coiso é eleito presidente da UNE. Aproxima-se do presidente da República, sonha ocupar o seu lugar.

Março de 1964: O Coiso imagina comandar um exército de estudantes revolucionários. Descobre que os militares vão dar um golpe e fechar a UNE. Pula o muro de uma embaixada e foge para o exterior. A UNE é incendiada. Os estudantes elegem uma diretoria clandestina para resistir ao golpe.

1964 -1978: Período obscuro na biografia do Coiso. Dizem que passou pelo Chile onde se casou com uma mulher que tinha o mesmo sobrenome do presidente daquele país. Só o sobrenome, mas não as mesmas idéias. E que, quando os norte-americanos teleguiaram Pinochet para derrubar Allende, ele foi um dos poucos a conseguir visto para entrar nos Estados Unidos. A única coisa que se sabe bem dessa época é que o Coiso teve várias vezes de tomar laxante por causa do seu difícil processo de digestão.

1979 - 2009: O Coiso ocupa diversos cargos, sem concluir nenhum. Assessores reclamam da sua rispidez e teimosia. O povo detesta sua avareza. Mas ele continua a esconder seus presentinhos. Agora tem muitos. Coiso também gosta de atacar pelas costas quem passa por sua frente. E quer ser presidente a qualquer custo. Sua barriga, porém, ainda dói.

Fim de outubro de 2010: O Coiso perde a eleição para uma mulher sem as suas qualidades napoleônicas. Desespero: Como isso pôde acontecer? - E eu, o mais preparado? - Ai! hoje tou estufado. - Acho que aquela calabreza não me caiu bem.

Janeiro de 2011: Coiso desenvolve forte depressão. Antes de abandoná-lo, num derradeiro ato de generosidade e lealdade, sua amiginha puxa um trago e decide levá-lo ao analista. Seis meses no divã, mas Coiso não entrega suas fantasias ao psico. O psicanalista é que entrega os pontos e o dispensa das sessões. O Coiso então divulga um dossiê com graves denúncias sobre as práticas corruptas do seu terapeuta.

Novembro de 2011: Sua mulher lhe traz uma imagem de Aparecida para curá-lo. Não resolve. O pastor Malafaia tenta afastar seu encosto. O capeta, entretanto, não desgruda. Coiso resolve frequentar um centro espírita. Descobre-se médium. Psicografa cartas de Napoleão ..... Já é noite quando uma ambulância chega com suas sirenes estridentes.

Natal de 2011: O Coiso sai pálido do banheiro. Outra vez o laxante não fez efeito. No corredor, uma fila o espera aos uivos: Ave Coiso! Henry Cristo discursa para a pequena multidão, enaltecendo as qualidades do grande líder. Uma velha descabelada agarra-o para beijá-lo. Mas, seu guarda-costas, um cara baboso e de olhos esbugalhados, consegue protegê-lo. O Coiso segue impassível, orgulhoso e imponente.
Na porta que dá entrada aos dormitórios, um enfermeiro observa a cena com atenção. Seu olhar é de tédio e compaixão.

sábado, 23 de outubro de 2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Rede Globo falsifica a bolinha de papel

Na história brasileira, ficaram conhecidas algumas armações e falsificações políticas que tiveram consequências trágicas. Exemplo disso foram as "cartas falsas", forjadas durante o governo de Artur Bernardes, na República Velha. Outro caso famoso por sua perversidade foi o "Plano Cohen", um suposto plano de tomada do poder pelos comunistas, inventado pelos integralistas, que serviu para justificar o golpe do Estado Novo (1937).
Muito tempo depois, Brizola denunciou uma grave armação da Rede Globo contra sua candidatura. A mesma emissora editou e deturpou, alguns anos à frente, o debate entre Lula e Collor para beneficiar o segundo candidato. Conseguiu. Collor foi eleito. É esta liberdade de imprensa que a Globo, em nome do PIG, defende?

A farsa agora se repete na falsificação do vídeo da bolinha de papel. Mas nem sempre as farsas terminam em tragédia. Pelo excesso de uso, podem se transformar em comédia, das mais rasteiras e hilariantes. Mais risíveis até que as fora de moda de Falabela.


Contagem regressiva

Faltam NOVE dias para Serra encerrar sua carreira política, orientada por uma ambição subjetivamente compensatória, que o levou tentar todos os meios, principalmente os eticamente condenáveis: tornar-se presidente da república. Mas seu sonho foi como uma bolinha de sabão. De menor densidade ainda que a bolinha de papel na qual se agarrou para uma derradeira tentativa de golpe.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Breve cronologia da longa luta pela construção das res pública brasileira (revista e ampliada)

Segunda metade do século XVIII: Insurreições esparsas e atomizadas de colonos (geralmente ligados a atividades comerciais e administrativas urbanas)  inspirados em difusos valores republicanos. Violentamente dizimadas pela coroa portuguesa.

Independência. Época regencial e início do Segundo Reinado (séc. XIX): Rebeliões de camadas médias e/ou pobres de algumas províncias, marcadas por traços republicanos. Violentamente reprimidas pela Guarda Nacional (constituída de forças sob o controle dos grandes proprietários de terras).

1870-1889: Difusão dos ideais republicanos entre civis e militares positivistas vinculados ao mundo urbano e ao segmentos sociais médios. Luta pelo fim da escravidão, defesa do Estado Laico, proposta de reforma das instituições e da modernização do país. Inspiravam-se na Revolução Francesa.

Formação dos Partidos Republicanos regionais. Adesão de alguns grupos latifundiários (entre eles paulistas), contrários à centralização monárquica e interessados na implementação de um federalismo à moda americana. Defendiam a autonomia provincial e a imigração estrangeira, resistiam às leis abolicionistas, tinham como base social os grandes proprietários de terra.

1889 - 1930: A instalação da República desencadeia uma luta encarniçada entre os dois grupos acima. Após dois governos militares (Deodoro e Flolriano), as oligarquias agrárias vencem sob a liderança da elite paulista. Inicia-se a interminável República do Café-com-Leite, período marcado pelo domínio oligárquico, sob hegemonia paulista. A indústria se desenvolve em São Paulo a partir da cafeicultura. A questão social (operária, camponesa) é tratada como caso de polícia. Época de grande exclusão social, tensões, revoltas sociais e início do sindicalismo. A coisa pública é tratada como coisa privada pelas oligarquias industriais e agrárias.

1922: Rebelião tenentista do Forte de Copacabana. Os tenentes retomam ideais do republicanismo militar radical. Combatem o domínio oligárquico e coronelístico. A revolta é duramente reprimida.

1924: Rebelião tenentista em São Paulo. Propósitos semelhantes. A cidade é bombardeada pelas forças da ordem oligárquica. Depois de vários dias, a revolta é debelada.

1924-1928: A Coluna Prestes percorre vastas regiões do país propondo uma insurreição contra o poder central. Principal objetivo: combater as oligarquias que faziam do Estado a sua casa, regenerar a res pública. Membros: tenentes e alguns civis. A Coluna é perseguida mas não vencida. Pequena parte da Coluna, tendo à testa Luis Carlos Prestes, se aproxima dos comunistas.

1930: A Aliança Liberal (tenentes mais setores dissidentes das oligarquias e alguns civis antioligárquicos), sob a liderança de Getúlio Vargas, depõe Washington Luís e toma o poder central. Fim da República Velha. Vargas nomeia interventores tenentistas para o governo dos Estados.

1932: A oligarquia paulista se rebela na tentativa de retomar o antigo poder. Lança mão de intensa propaganda manipulatória para ter o apoio das classes médias e populares. Apesar disso, as forças revolucionárias vencem os reacionários paulistas.

1932-1937: Intensa luta pelo controle do poder. Militares do alto comando reestabelecem a disciplina no Exército e controlam os tenentes defensores do reformismo de maior alcance. De outro lado, desencadeia-se um embate entre comunistas e integralistas. O PCB realiza um levante que é rapidamente frustrado. Período repressivo. Vargas se fortalece com o apoio das cúpulas militares politicamente conservadoras.

1937-1945: Respaldado pelo alto comando das Forças Armadas, Vargas estabelece a ditadura do Estado Novo.  Controla ou se alia aos setores oligárquicos. Reequipa as Forças Armadas. Implementa ações nacionalistas, criando empresas para o desenvolvimento nacional. A industrialização caminha a passos largos. Cria a legislação trabalhista. Ganha o apoio das massas populares. Inicialmente simpático ao Eixo, termina por se aliar aos Estados Unidos e a enviar tropas brasileiras para combater o nazifascismo. Cria o Partido Trabalhista Brasileiro. Deposto em 1945, apesar da oposição dos setores da oligarquia privatista, consegue eleger como seu sucessor Eurico Gaspar Dutra, do alto comandante do Exército.

1950-1954: Getúlio volta nos braços do povo e é reeleito. Novo período de desenvolvimento nacional e social. Criação da Petrobrás com enorme respaldo popular. Os setores oligárquicos, contrários à política trabalhista e nacionalista, desencadeiam intensa campanha golpista sob o comando da UDN. Em nome da democracia e dos princípios liberais privatistas, tentam o golpe contra Vargas. Carlos Lacerda, o corvo, é o principal líder da oposição gollpista. Vargas se mata. Intensa comoção popular.

1955-1960: Intelectuais nacionalistas se reúnem em torno do ISEB: Instituto Superior de Estudos Brasileiros. Formulam projetos nacional-desenvolvimentistas. De outro lado, os militares dos escalões superiores se organizam em torno da Escola Superior de Guerra, defensora do anticomunismo típico da guerra fria, do alinhamento à política conservadora dos norte-americanos e dos princípios liberais privatistas da UDN. Industrialização e modernização sob o governo JK. Endivademento externo.

1960-1964: Após a crise provocada pela renúncia do demagogo Jânio, João Goulart, herdeiro de Vargas, chega à presidência (mas sem poder) após um acordo das elites que estabeleceu o parlamentarismo. Tem o apoio dos nacionalistas, dos comunistas, de parte dos setores médios, dos camponeses, do operariado, dos estudantes, dos intelectuais e dos sargentos. Realiza um plebiscito que devolve ao país o poder presidencialista. Sofre forte reação dos setores conservadores. Tenta realizar as reformas de base (entre elas a agrária). Estudantes e professores levantam a bandeira da reforma universitária. Militares estimulados pelos latifundiários e pela burguesia oligárquica paulista e mineira (principalmente) conspiram para tomar o poder. Mulheres católicas da elite hipócrita, padres conservadores, TFP, velhos integralistas e outros reacionários realizam a Marcha da Família. (Serra ainda estava do outro lado, mas já olhava aquele desfile com interesse e ambição política)

1964-1984: A ditadura militar em suas várias faces: ajuste monetário, suspensão das liberdades, censura, repressão sobre os movimentos sociais, terror, internacionalização da economia, controle nacional de setores estratégicos para a segurança nacional. Sob o governo Médice ocorre o "milagre brasileiro" que angaria apoio das classes médias ao governo. Grande mobilização política contra o regime em 1967 e 68 reunindo estudantes, professores, intelectuais e artistas. O governo impõe uma reforma universitária de modelo privatista norte-americano. Reprimidos na esfera pública, setores da esquerda iniciam ações armadas contra a ditadura (Dilma integrava um desses grupos de resistência). Onda brutal de repressão. Os líderes sobreviventes se exilam.

Fim da década: Campanha das "Diretas Já" une os oposicionistas ao regime. O partido do governo (ARENA, depois PFL e depois DEM) atua para impedir as mudanças. Derrotado, se alia ao PMDB para se manter no poder. Redemocratização do país, volta dos exilados (Serra retorna em figurino conservador; Gabeira chega de sunga ecocapitalista; Brizola vem para retomar o trabalhismo varguista). Movimento operário no ABC e outras cidades do país. Mobilização de professores e outras categorias de trabalhadores. Surgem novas forças políticas, entre elas o PDT, representativo da esquerda nacionalista (Brizola é o líder, Dilma se filia à sigla) e o PT (reunindo grupos de esquerda, católicos progressistas, sindicalistas e intelectuais).
1985-2001: Intensa disputa entre forças rivais: defensores da res pública e defensores da res privada. Governos Sarney e Collor. Agitação política, divisão e fragmentação dos partidos (PMDB e PSDB, partidos nanicos), conciliação oportunista das elites conservadoras sob a liderança do PFL, descontrole da economia, inflação. (Com a queda de Collor, Itamar cria o Plano Real e controla a inflação). O PSDB transforma a socialdemocracia em neoliberalismo e se alia às forças oligárquicas arcaicas. FHC chega ao poder com o apoio das classes médias e dos grupos sociais dominantes. Surge o PV oscilando entre a socialecologia e o ecocapitalismo. Retrocesso das conquistas sociais e nacionais. Década perdida.

2002-2010: Lula chega ao poder num leque de alianças que aglutina peedemistas progressistas ou não, pedetistas, PCdoB, PSB e outros partidos menores). Retomada da construção das res pública. A esquerda radical rompe com o PT e funda pequenos partidos puristas (PSTU, PSOL, entre outros). Grandes programas sociais garantem o apoio ao governo. Intensa oposição oligárquica privatista sob a bandeira do velho udenismo. Tentativa de golpe contra Lula que, no entanto, angaria enorme apoio popular.

Forças retrógradas se unem para disputar a presidência. Dilma é indicada à sucessão de Lula pelas forças nacionalsocialdesenvolvimentistas. (Marina, desiludida por não ser a preferida de Lula, cai na cama de gato verde que balança entre o ecocapitalismo e a socialecologia; lança a pretenciosa e malograda terceira via que acaba na estrada privatista oligárquica).

outubro de 2010: Retorno das senhoras católicas, dos padres e dos pastores conservadores, da TFP, dos latifundiários agronegocistas e outros oportunistas da mídia. Luta indefinida. Serra agora adere à Marcha dos hipócritas abortistas.  O Estado Laico e modernizador, nunca completado, padece. Vencerão os reacionários? Abortarão as conquistas sociais?

nota de rodapé: Este é um panfleto
escrito à base da memória e sem consulta a livros, que
padece de todas as simplificações e generalizações próprias a tal gênero de texto. Mas sei também fazer de modo rigorosamente acadêmico, o que não é o caso aqui. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Memória de um tempo dramático

O termômetro político da Califórnia nouveau riche brasileira

Uma semana na minha terra, São José do Rio Preto, sob um calor que abafa o cérebro, e já basta. Temo que esta cidade seja o termômetro da virada política conservadora que atravessamos. Aqui o golpe de 64 foi recebido com rojões. Aqui Collor triunfou, assim como todos os tucanos e outros oportunistas. Aqui Serra está em alta no segundo turno.
Não tenho uma amostra leitoral propriamente científica. Mas Vilma, minha faxineira, fornece pistas seguras para estimativas, já que ela também trabalha em várias outras outras casas e me entrega o ouro sobre as preferências políticas dos seus patrões, ou, melhor, das suas patroas.
Segundo Vilma, a maioria é pró-Serra. Tem uma, tipo perua nova, rica faz pouco tempo, que detesta pobre e fica indignada com o fato de que agora qualquer um pode comprar carro vectra, civic, sem falar das santanas e dos gols velhos de guerra. A tal da perua todo ano troca de carro para se distinguir desses pobres encarrados. Vilma conta ainda que outra patroa vive no shopping (chega em casa de cabelo molhado - hum hum!) enquanto o marido trabalha. E reclama que hoje em dia o ambiente shoppínico é também frequentado pelos manos da periferia. Pois é. Como Rio Preto não tem praia, os manos tiveram de invadir o shopping da classe média. E esta se revoltou. Vai votar no Serra.
Do jeito que as coisas estão, não terei mais lugar prá tomar cafezinho. Já briguei com três caixas de loja de conveniência. Hoje bati boca com mais uma delas. Protestei porque no caixa estavam afixadas fotos do Alckmin, do Serra, do prefeito de Rio Preto e do Rodrigo Garcia Lopes (argh!) quando passaram pelo local. Ela me respondeu: "Cê queria o quê? Que eu pussesse a Dilma? Deus me livre". O sangue ferveu nas minhas veias. Perguntei se ela havia estudado e se era evangélica. E sai sem querer ouvir mais nada. Já sabia a resposta.
Nenhum preconceito contra as caixas. E nada de generalizações. Mas, já generalizando, creio que os neurônios dessas meninas foram alimentados pela Xuxa, pela Lucianta Gimenez e pelas novelas da Globo. Todas querem ser modelos. Por isso se identificam com os vencedores, com os sonhos vendidos pela elite. Serão, isto sim, eternos modelos de burrice!
Por que é que grande parte do eleitorado feminino rejeita Dilma? Alguma psicologia barata deve explicar o fenômeno.

Agora falando sério

A situação é dramática. Tarso Genro disse que vivemos uma forma de golpismo parecida com o que ocorreu às vésperas do golpe de 64. Concordo com ele. Não que os militares tentem tomar o poder. Não precisam. Serra já os representa muito bem. Usou expedientes moralistas, hipócritas e culturalmente primitivos em sua campanha.
Como é que se pode admitir tanta influência política religiosa? Como é que retrocedemos a temas morais tão atrasados? Como é que pode uma praticante de aborto, Mônica Serra, se apresentar ao PIG com esse figurino carola, sem discutir o assunto em sua crueza verdadeira? Não que se deva condená-la por ter abortado. Mas sim pela hiprocrisia.
E o tal do Paulo Preto e sua bolsa recheada de quatro milhões desviados? Por que não sai no PIG? Por que condenam José Dirceu? É golpe à vista. E nada de reforma política que acabe com o caixa dois e a concessão de canais abertos a grupos religiosos. Nada de Estado laico. Que dor devem sentir Robespierre, Silva Jardim, Floriano Peixoto e Raul Pompéia!
E a cândida Marina? Descerá do muro ou ficará oportunamente no alto da seringueira a assistir o retrocesso político? Ou ela seria pura expressão do atraso? Marina tem noção do mal que fez e continua a fazer ao Brasil? Sabe lá o que significará uma vitória de Serra nas condições brasileiras atuais? O que será do Pré-Sal, da Petrobrás, das Universidades Federais, do Prouni, do Bolsa Família, do Minha Casa, minha vida?
Isso é pouco? Foi a retomada do nacional-desenvolvimentismo, interrompido em 64. Quantas décadas ainda teremos pela frente para recompor o país de um novo assalto neoliberal? Que justificativa a suposta terceira via (pouquíssimos votaram em Marina em razão do seu projeto de´desenvolvimento sustentável) dará à sociedade brasileira para sua traição política? Ainda é hora de pressionar a cândida Marina. Sua ambição pessoal não pode estar acima dos interesses do povo explorado do país. Com a palavra seus adeptos!

O terceiro mandato que não ocorreu

Lula deu mostras inequívocas do seu apreço à democracia representativa - à democracia puramente formal que não é a única forma de democracia historicamente conhecida. Sabe-se que houve, há e haverá várias formas de democracia. Lula tinha tudo para tentar um terceiro mandato. Bastava um plebiscito popular.
Como já afirmei em post muito antigo, Roosevelt - o artífice do New Deal, que revitalizou a sociedade norte-americana - obteve um terceiro mandato em nome dos interesses maiores do seu país. De Gaulle, ex-guerrilheiro e partícipe da luta armada na Resistência Francesa - ganhou consentimento do seu povo para reerguer a França depois da ocupação nazista. Nossa situação não é assim tão diferente, caros defensores da democracia formal e elitista burguesa. Pagaremos o preço da nossa ingenuidade? Nunca lemos Maquiavel sobre a arte da política?
Caímos no conto do vigário da suposta democracia demotucana. Mas ainda há saída. Que Lula ponha as mãos na massa. Se necessário, que se licencie da presidência nestas duas últimas semanas antes da eleição e percorra o Brasil ao lado de Dilma. Que levante a população brasileira!

Estou finalmente feliz com alguns colegas historiadores

Depois de longos anos de neutralidade, apatia e alienação política da nossa corporação, eis que o atual presidente da ANPUH - Associação Nacional de História, Durval Muniz de Albuquerque, lança uma carta eloquente em defesa da candidatura de Dilma Roussef. É dessa ANPUH que me orgulho: uma associação que se manifesta, que não se alheia dos tempos dramáticos em que vivemos. A carta vem com o título Dois projetos radicalmente distintos. Recomendo-a a todos. Pena que não consegui anexá-la aqui. Mas valeu, caro Durval.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Como Serra comemora o Dia do Professor

15 de outubro de 2010. Dia do Professor. Os professores paulistas nada têm a comemorar. 16 anos de PSDB no governo significaram (e ainda significarão com Alckmin) a completa degradação do sistema público de ensino e a mais aviltante desvalorização do professor na história de São Paulo.
O vídeo abaixo demonstra bem como os mestres foram tratados durante esse tempo. Que os professores paulistas não se esqueçam disso na próxima votação para presidenta.
E que os professores brasileiros não se deixem levar pelas falsas promessas do exterminador da educação pública em nosso país.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Outra herança maldita de FHC: a degeneração da pesquisa e da pós-graduação no Brasil sob o império dos pontinhos da CAPES

Finalmente alguém põe o dedo na ferida da pesquisa e da pós-graduação no Brasil. Está mais do que na hora de rever outra das heranças malditas de FHC, arquitetada em concordância com as diretrizes neoliberais do Banco Mundial e infelizmente mantida no período Lula: o sistema de avaliação da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).
Intelectuais respeitados do país já haviam denunciado esse pernicioso e anacrônico sistema que privilegia a quantidade em detrimento da qualidade. Entre eles, Marilena Chaui e Olgária Matos, para citar apenas dois nomes. Nas universidades há um murmúrio lamentoso em surdina, mas o negócio é se calar e se adaptar às normas, sob pena de ser tachado de improdutivo. Todo mundo quer ser produtivo. Nem que seja por meio da fabricação de inutilidades.
Esse alguém é Paulo Prochno, professor da Universidade de Maryland, segundo o que diz Thomaz Wood Jr. em matéria publicada no último número da CartaCapital. Quem sabe, desta vez, as críticas encontrem ressonância entre nós, já que partem de um acadêmico legitimado por sua experiência no centro do mundo desenvolvido (nossa eterna obsessão) e não na periferia brasílica.
O cara critica acidamente as pesquisas brasileiras realizadas na área da administração. Mas creio que suas imprecações devam também valer para os demais campos de conhecimento, em particular, para as ciências humanas nacionais. O mal é mais abrangente do que se supõe à primeira vista.
Reproduzo aqui seus argumentos centrais, conforme o texto do articulista citado:
1. O jogo de pontinhos da CAPES (relativo ao desempenho geral dos acadêmicos e às várias formas de veiculação das pesquisas realizadas nos cursos de pós-graduação) é uma patologia que pode ser fatal.
2. Trata-se de um sistema pretensamente racional, mas que induz a quantidade em prejuízo da qualidade.
3. A exigência de constante publicação feita pela CAPES leva à proliferação de revistas pseudocientíficas.
4. Tudo isso multiplica as irrelevâncias pseudoeruditas divulgadas em artigos que ninguém lê.
5. O sistema leva à formação de uma geração de burocratas da pesquisa, um grupo frágil e cavernícola, incapaz de de entender e explicar o mundo real.
6. O sistema serve para conseguir pontinhos e cada vez menos para saber o que pesquisar e como pesquisar.
Já cansei de dizer a mesma coisa, mas além de ser chamado de retrógrado, me acusam de ignorar que a "CAPES somos nós". Não ignoro essa trivialidade, ao contrário, procuro combater tal modo de cooptação dos pesquisadores pela doença tecnocrática. Concordo também com Prochno quanto ao surgimento da casta de burocratas da pesquisa. Basta observar como funcionam os conselhos de pós-graduação, os órgãos de pesquisa da universidade, os comitês de área da CAPES somos nós.
Como professor que acompanha e participa da pesquisa em História desde os anos 80, há muito tempo que não tenho contato com trabalhos verdadeiramente relevantes, ou no mínimo estimulantes. A pesquisa na minha área se tornou medíocre, tediosa. Falta inventividade, criatividade, aderência à vida e aos sonhos.
Lastimo o fato de que o MEC, sob o governo Lula, não alterou esse quadro desolador. Espero que Dilma o faça. Só que para isso a comunidade científica terá de pressionar o governo. Haverá tal atitude? Não creio. A casta burocrática da pesquisa tanto se alimenta do tal sistema de avaliação quanto enreda a todos em sua teia.
Enquanto isso, fico na minha. Publico apenas o que julgo digno de publicação. Quanto ao sistema, desejo que exploda, para não dizer outra coisa: que se foda.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Do bem e do mal

Duas faces do eleitorado de Marina

Tenso e faminto na reta final da apuração do primeiro turno, saio para comer alguma coisa numa loja de conveniência. Enquanto devorava o sanduba armazenado desde o dia anterior, definia-se o quadro eleitoral: haveria segundo turno. Ao pagar a conta, a moça do caixa, eleitora de Marina, muito provavelmente evangélica, demonstrou sua indignação com o resultado: "Nessa Dilma bandida eu não vou votar". Puto da vida, mas com um pouco de sangue frio, perguntei qual a razão. A resposta veio rápida: "Ela vai liberar a maconha, essa cafajeste". Lancei sobre ela um olhar envenenado e sai. O que mais poderia fazer diante de tamanha ignorância social, cultural e política?
Demorei pra dormir. Ainda atônito, fiquei no twitter à procura de informações, de avaliações sensatas, de alguma esperança de Brasil. Foi então que soube das notícias que circularam pela blogosfera e nos panfletos distribuídos nas portas das igrejas nos dois dias antes da votação. Letras sujas de uma moral hipócrita, textos difamatórios sobre a vida íntima de Dilma Rousseff, denúncias torpes anônimas, a mais profunda sordidez. Tudo aquilo que se repete há mais de cem anos, sempre quando alguma força social majoritária ameaça a ordem dominante secular.  E acompanhei também as centenas de mensagens escritas no calor da hora. Algumas delas vinham de uma twiteira sempre frequente, outra eleitora de Marina - uma ecologista sincera de Mato Grosso que lançava ao mundo sua desolação em face da não ida da sua candidata ao segundo turno (ingênua, ela acreditou nisso). Seus posts irados: "Não votarei em Serra nem em Dilma. Que se fodam juntos". "Que a direita e a esquerda se matem. Não contem comigo". Arrisquei o argumento ponderado de que nunca existiu centro nem terceira via ou onda verde, que o PV estava a serviço do Serra. Desisti. Ela não compreenderia.
As duas eleitoras raivosas representam bem a dupla face do eleitorado marinense a ser conquistado, ai de nós: de um lado, a ignorância bárbara, primitiva e supersticiosa de alguns segmentos da população pobre alimentada pela miséria religiosa dos modernos templos eletrônicos; de outro, a ideologia conservadora das classes médias insuflada pelo terror das mídias e pelo ecocapitalismo despolitizado. Ambas alienadas e oportunistas.

O cristão anticristo

Se é para operar com os preceitos religiosos, se é para permanecer nas trevas midievais da modernidade brasileira, digamos de vez: Serra é o anticristo, como ironizou Jacques Wagner. Se Cristo estava do lado dos oprimidos, Serra sempre esteve do lado dos poderosos, do mal. Serra é um homem mau. Ressentido, vingativo, vaidoso.
Cheguei a vê-lo de perto. Integrei a comissão de docentes das três universidades públicas paulistas (UNESP, USP e UNICAMP) formada para negociar com ele uma saída para a grave crise instalada no início do seu mandato como governador de São Paulo. No primeiro dia da sua gestão, na calada das férias, Serra surpreendeu a comunidade universitária com um decreto que suspendia a autonomia universitária, em vigor desde a redemocratização do país. Nem mesmo Maluf ousara fazê-lo. Serra o fez, como mais tarde desrespeitaria o princípio da nomeação do candidato mais votado da USP, com isso igualando-se a Maluf. Ao decretar o fim da autonomia universitária, detonou uma onda de mobilizações e de protestos estudantis sem precedentes desde os anos 70. E se não fosse o bastante, Serra autorizou a invasão policial do câmpus universitário, fato inédito desde a ditadura.
Mas como já disse acima, cheguei a vê-lo de perto. Diante de dezenas de professores, alguns deles do próprio PSDB ou de sua base de apoio, todos contrários ao decreto. Vi sua figura acuada, vingativa, pálida tendo de ouvir os discursos inflamados e unânimes contra sua insensatez. Serra é isso. O mal que deve ser enfrentado. Vencemos naquele caso.
Pude vê-lo outra vez no palácio, desta feita pela tv. Cercado pelos professores da rede pública. Imaginei-o novamente acuado, pálido. Mas também vingativo, a ordenar por telefone a repressão brutal contra os manifestantes. E ainda noutra oportunidade, a autorizar o enfrentamento da polícia. "Pau neles", provavelmente ordenou. Pálido, acuado, mas vingativo. Como Hitler em seu bunker.
Serra é isso. O mal que deve ser enfrentado. Venceremos.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ne me quittes pas

Hoje, nada. Ao volante, por quatrocentos quilômetros, escrevi duas matérias mentalmente. Aliás, sempre faço minha escrita inicial na cabeça, com pontos, vírgulas e demais símbolos de sentimento. Um post seria sobre política, outro sobre profissão. O primeiro, obviamente, trataria das questões do segundo turno para a presidência - minha modesta contribuição ao debate. O previsto para o dia seguinte seria mais pessoal, mas nem tanto: envolveria uma tomada de decisão, um fechar a porta definitivamente, um não olhar pra trás. Prometo ainda publicá-los aqui.
Hoje, tudo. Véspera do dia da ruptura, meu coração anda meio doído, embora calmo e racional. Por isso, nada de política. Preciso de um pouco de lirismo, acho que muita gente também, especialmente depois das emoções de ontem. 
Assim, ofereço uma das minhas canções preferidas, acho que igualmente de muita gente pelo mundo. Ela que talvez seja considerada uma das maiores do cancioneiro universal. Não planejei trazê-la aqui. Ela é que estranhamente me cai por acaso toda vez que sangro: Ne me quittes pas, de Jacques Brel, que foi gravada por grandes intérpretes em todos os continentes: Edith Piaf, Nina Simone, Nacha Guevara, Sting, só pra lembrar alguns. No Brasil, há interpretações memoráveis na voz de Cauby Peixoto, Ângela Ro Ro e, mais recentemente, de Maria Gadu, que deu um molejo moderno e nacional à música.
Já que não posso postar todas as interpretações, deixo aqui três das que mais aprecio: do próprio compositor, da inesquecível Maísa, e de uma Alcione já eternizada de tão cult ...



sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Pai, perdoe os pequeno-burgueses desencantados!

Um historiador, colega meu, que no passado se imaginou de esquerda mas nunca sujou as mãos por esse ideal, me disse estar desencantado com a política. Por isso decidiu votar em Marina Silva - segundo ele, a única candidata ética e moderna desta eleição.
Do alto da minha compaixão dalailamiana, respeito sua opção, embora considere por demais frouxos os seus critérios de escolha. Compreendo também porque a Madre Teresa de Araque ou Seringueira da Natura consiga arrastar votos da classe média dita intelectual. Ela representa bem a consciência arrependida de tal segmento. Radicais de grife, os intelectuais pequeno-burgueses precisam de uma bandeira pretensamente moderna e imaculada para aparar seu medo de mudanças sociais, seu preconceito para com os pobres. Ninguém melhor do que uma cabocla para canalizar esse sentimento, essa ideologia. Mas uma cabocla pobre ascendida ao mundo da classe média. Uma cabocla pobre mobralizada e dotada de um vocabulário irretocável. Já prestaram atenção na linguagem da Marina da Selva global? Por que o uso de um português tão escorreito, quase arcaico, ainda que tão artificioso e impopular? Distinção social de formato simbólico, diria o beato Pierre Bourdieu. Por que a imagem impoluta e os trajes rústico-assépticos de pastora? Mas, o que importa saber, sobretudo, é: o que fará ela na presidência, além de flexibilizar a legislação trabalhista (bandeira do PSDB) e de reciclar o capitalismo com a abertura de possibilidades ao empresariado ávido pela exploração de produtos maquiados de natureza?
Oh Grande Lacan! Derrube com seu sopro profano o frágil pedestal onde se ergue essa linguagem superegóica, esses instintos recalcados, essa ideologia mobralesca, essa moral de sujeita suposto saber!

Outro amigo meu, depois de um longo e tenebroso inverno, deixou no último post um comentário que aqui reproduzo:
"A Marina vai flexibilizar as leis trabalhistas. A Dilma não vai fazer a reforma agraria, urbana e nem passar a jornada de trabalho para 40 horas semanais. O Plinio não vai revogar o capitalismo com uma canetada. Só o Serra pode fazer alguma coisa: dar continuidade ao desmanche do Estado, dos serviços públicos, o que nos torna cada vez mais dependentes enquanto nação, retira direitos aos que ja não possuem nada... torna os ricos mais ricos etc etc".
Tenho de concordar com algumas das suas afirmações, mas discordo absolutamente da sua conclusão implícita: o voto nulo? Pois, evidentemente, todos os candidatos transitam no horizonte da reforma e não da revolução. Dilma, o PT e os aliados igualmente não propõem revolução. No entanto, retomam o projeto de um Estado social indutor do desenvolvimento nacional e distribuidor de renda. É pouco? Nada disso. Significa muito no caso brasileiro, tanto que desde 64 - e muito antes - os grupos retrógrados tudo fizeram para impedi-lo. As massas sabem disso.
Serra e Marina não se afastam dos postulados neoliberais do Estado mínimo, a segunda com fachada mais moderna. Plínio, disfarçado de radical, nada tem a oferecer a não ser um sonho de revolução pela caneta, na prática, um moralismo denuncista tipo Heloisa Helena, católico e evangelizador. Se fosse o caso revolucionário, prefiriria o o anacronismo do PCO, do PCB e do PSTU, não soubesse eu, por experiência militante num destes partidos décadas atrás, que eles não tem nada a propor além da ideologia. Ideologia como falsa consciência, isto é, negadora da realidade, da situação social objetiva, nacional e internacional, da correlação de forças, dos sonhos (inclusive de consumo) da população pobre no mundo hoje.
A pequena burguesia ideológica é assim mesmo. Anda sempre com um amparo suprarreal. Sinal de arrependimento, sinal de má consciência, sinal de conservadorismo.
Oh Santos Marx e Lênin, que tão bem compreendestes a face nefasta da pequena burguesia! Extirpai-a da história.
Oh Profeta Nietzche, que como ninguém denunciaste a covardia e o instinto de morte dos que se imaginam civilizados e conscientes da história!
Oh Salvador Supremo, perdoai-os, eles não sabem o que dizem!