quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O longo adeus à História III

Já ia mudar de assunto e fazer uma pausa, espécie de retiro espiritual até para reverenciar os mortos, mas os comentários redespertaram minha compulsão discursiva. Nada do que se programa resiste hoje em dia por muito tempo, o que não é ruim, pois exige de nós uma constante ativação neuronal em direções ou ondulações variadas e simultâneas, muito diferente do raciocínio indutivo por etapas.
Minha idéia era tratar disso mais para a frente para não cansá-los nem me cansar. Besteira pedagógica. Peço, aliás, que abandonem de vez qualquer imagem professoral que porventura tenham de mim.  Nunca predendi adotar tal figurino.
E já que é assim, vamos direto ao assunto. Essa forma de pensamento em conexão com outros pensamentos, formulada e expressa cada vez mais de forma imediata em rede, é chamada por Pierre Levy de inteligência coletiva. Trata-se de algo positivo ou negativo? Creio que de ambos. Perde-se de um lado, ganha-se de outro. E talvez nem haja perdas, senão a mescla da reflexão mais lenta e cadenciada com a criação caótica (no bom sentido do termo porque originou a vida no princípio dos tempos). As vanguardas modernistas também tentaram experimentá-la, só que com êxito parcial, uma vez que ainda não havia desenvolvimento técnico suficiente para tal propósito.
Quando visito o twitter - para mim o exemplo mais próximo da comunicação que virá daqui por diante - vejo como se dá esse tipo de circulação de idéias, de formação das opiniões e das atitudes potenciais nesse jogo. Todo dia me surpreendo com novas possibilidades de arte e pensamento agora disponíveis para se conectar pelo mundo. Ao contrário do que, à primeira vista poderíamos entender como massificação, parece que as subjetividades afloram como cogumelos.
A rede é formada por uma imensidão de indivíduos e grupos que se interligam pelos mesmos interesses e que ao mesmo tempo se relacionam com gente voltada para outros assuntos. Não há só piadistas de mau gosto ou jornalistas redundantes, mas também escritores de minicontos e minipoemas (gênero que nasce como uma espécie obra coletiva), filosofistas, psicologistas, socioprofessores, arteiros e toda uma multidão inclassificável segundo os padrões conhecidos.
Otimismo demais hoje, amanhã o ceticismo de sempre? Talvez seja isso, mas não me cobrem coerência se nem mesmo os pensadores de ponta conseguem apontar alguma certeza. 
Quando falo em adeus à história, enfim, e que fique claro, não me refiro apenas e especificamente à disciplina com tal nome. Penso em todas as disciplinas e na escola em geral, da universidade aos primeiros anos de formação, que patinam sem perceber que as novas gerações já aprendem por meio do não-método da inteligência coletiva. Até mesmo os digitamente excluídos do meio da floresta ou dos sertões.
Noutras palavras, é a essa história, nascida com a dita modernidade - realidade histórica, pensamento histórico - que me refiro. E é a ela que a cada instante dizemos adeus, querendo ou não, felizes ou melancólicos.     
  

Um comentário:

  1. Esse mundo dinâmico e novo ainda é um enigma para todos. É pretensão pensar que todas as possibilidades da comunicação digital são conhecidas. A idéia de inteligência coletiva é sedutora, pois permite projetar um meio de superar a fragmentação contemporânea. Um pouco de ceticismo é salutar para a formulação de um conhecimento antenado ao impacto da realidade virtual.

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